Sobre o episódio
O Bloco do Catuaí está de volta para a 2ª temporada! Toda quarta-feira, pelas próximas semanas, convidamos você a nos acompanhar entre uma regulagem de moinho e outra de torrador. Apresentado por Mari Mesquita, barista e consultora de negócios de café, o podcast segue com a proposta de colocar frente a frente quem faz do café especial algo tão especial assim, sem derramar o cappuccino pelo caminho. No 1º episódio, trazemos Raphael Brandão e o projeto Café di Preto. Pegue seu cafézinho e deguste enquanto dá o play e lê noss blog post!
Uma trajetória entre café e propósito
Natural de Araruama, Raphael Brandão — ou Rapha, como é conhecido — começou a trabalhar com café em 2019. No entanto, sua relação com a bebida vem da infância: por ter intolerância à lactose, ele toma café desde os quatro anos. Essa memória ajuda a explicar por que Rapha rejeita a ideia de que só o café especial merece respeito.

Fundador do Café di Preto, ele comanda a primeira microtorrefação de café especial do Brasil protagonizada 100% por pessoas pretas. O negócio nasceu em Nova Iguaçu e atualmente funciona em Quintino Bocaiúva, na Zona Norte do Rio. Mais do que vender café, porém, a marca busca combater a sub-representação racial e dar visibilidade a produtores negros.
O BLOCO DO CATUAÍ É PATROCINADO POR:
☕ Apê – Assinatura para espresso, com box mensal de cafés selecionados incluso. É espresso de barista na bancada de casa.
🧢 Ernesto Cafés Especiais – Casa de cafés especiais, pães artesanais e cultura de Brasília.
🥛 Nude – A bebida de aveia que nasceu para ser transparente, do nome à pegada de carbono.
🐐 Cabra Lab – Licor de café feito com grãos especiais brasileiros.
Uma torrefação que também funciona como vitrine
No Café di Preto, a curadoria é direcionada exclusivamente a produtores negros. Além disso, embalagens e lançamentos nas redes apresentam informações sobre cada origem, inclusive os perfis dos produtores. Assim, a torrefação também se torna uma vitrine para que essas famílias sejam encontradas por outros compradores.
Os primeiros parceiros foram Dona Neide Peixoto e a família Romão, formada por Luiz Carlos e Edilaine. O contato surgiu depois que um espectador das lives de Rapha na Twitch enviou uma reportagem sobre cafés produzidos por pessoas negras e exportados aos Estados Unidos. A partir daí, ele pesquisou nomes no Instagram e chegou aos produtores. Posteriormente, indicações e novas buscas ampliaram essa rede.
A torrefação trabalha majoritariamente com cafés especiais, mas também vende o Zeferina, um “café popular” abaixo da faixa dos 80 pontos. Com ele, Rapha propõe enxergar a qualidade como uma régua, e não como uma escolha entre café especial e café ruim. Por isso, o produto funciona como ponte para consumidores que não conseguem pagar o preço de um especial.

Técnica sem elitismo
Para Rapha, o café especial se parece com um prato de restaurante estrelado: exige cuidado extraordinário em todas as etapas. Já o tradicional é como um bom prato feito, acessível e presente no cotidiano. Entretanto, isso não significa que seja produzido sem técnica ou cuidado.
Essa visão aparece nas embalagens do Café di Preto, que não destacam pontuações. Afinal, a nota classifica o café verde e não garante o resultado depois da torra. Em vez disso, Rapha prefere descrever o perfil sensorial e permitir que cada pessoa reconheça o próprio gosto. O Zeferina confirma essa escolha: embora não alcance a pontuação de corte dos especiais, tornou-se o favorito de alguns clientes.
Em 2022, Rapha e Elis Bambil foram contemplados como bolsistas Dona Ivone, do Instituto Americano Coffee Coalition for Racial Equity, no valor de US$ 2 mil, para capacitação. Ele fez cursos de torra e classificação, este último com Camila Arcanjo. Hoje, além de torrar para sua marca, presta serviço para terceiros e aluga a estrutura a profissionais, em um modelo que ele compara a uma lan house da torra.

Redes sociais como ferramenta de educação
Nas redes, Rapha combina humor, demonstração prática e questionamento. Em um vídeo, por exemplo, queimou café de propósito para mostrar o que é, de fato, um grão queimado e contestar discursos repetidos sem comprovação. Ao mesmo tempo, reconhece que já reproduziu preconceitos contra cafés tradicionais e afirma que comunicar exige responsabilidade.
Consequentemente, seu conteúdo não serve apenas para divulgar produtos. Ele desmonta o elitismo do café especial, aproxima públicos de baixa renda e mostra que preferência sensorial não é atestado de conhecimento. Além disso, as redes ajudam a localizar produtores, criar conexões comerciais e dar transparência à cadeia.
O café que importa também é feito de relações

A construção do Café di Preto reúne técnica, memória, comunicação e compromisso racial. Para Rapha, não basta encontrar notas de pêssego na xícara se quem colhe o café trabalha sem proteção ou recebe de forma injusta. Da mesma forma, não faz sentido celebrar cafeterias sofisticadas enquanto baristas acumulam funções e recebem baixos salários.
Rapha tem como proposta devolver o café às pessoas. Seja um microlote fermentado, um canéfora ou o café tradicional com açúcar que acompanhou sua infância, a melhor xícara também pode ser aquela que cria afeto, movimenta pequenos negócios e ajuda a tornar a cadeia mais justa.
☕ Leia e ouça também o Episódio #2 – Conteúdo líquido: café como tradução, com Gisele Coutinho
Ouça o episódio completo
Este post é um resumo do que foi conversado no episódio. Para ouvir a conversa na íntegra, com os detalhes, exemplos e a troca em tempo real, acesse o Bloco do Catuaí no Spotify, YouTube ou no seu agregador de áudio favorito.
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