Brassagem Forte

A Hora Ácida #12: Julgando Forte, Cozalinda

Ep. 321 · abril 27, 2026 · com Diego Rzatki
Ouça também em: Spotify ↗ YouTube ↗

Sobre o episódio

Cervejas ácidas complexas são, por definição, as mais difíceis de avaliar em concursos. Além de exigirem juízes com experiência sensorial específica, elas carregam uma questão que o Brasil ainda não resolveu: os guias que definem os estilos foram escritos para o hemisfério norte, e o terroir daqui entrega resultados completamente diferentes.

Neste episódio do Brassagem Forte, Henrique Boaventura recebe mais uma vez Diego Simão, da Cozalinda, para uma edição especial do Julgando Forte, onde a teoria e a prática se encontram no copo.

O Brassagem Forte conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

As três famílias: Mista, Selvagem e Espontânea

Antes de qualquer degustação, Diego estabelece a divisão fundamental que orienta quem produz ou avalia esse tipo de cerveja. Primeiramente, a fermentação mista utiliza micro-organismos selecionados em laboratório – Saccharomyces, Brettanomyces, Lactobacillus e Pediococcus – com origem conhecida e controlada. Em segundo lugar, a fermentação selvagem captura micro-organismos da natureza, em uma fonte específica: o cervejeiro não controla exatamente o que entra, mas sabe de onde coletou e pode repetir a coleta. Por fim, a fermentação espontânea vai ao extremo: o mosto é exposto ao ambiente sem nenhuma interferência sobre o inóculo; o que vai entrar depende inteiramente do local escolhido.

A diferença prática é de previsibilidade e controle decrescentes. Mas também de maior expressão de terroir a cada etapa.

O problema dos Guias de Estilo

Tanto o BJCP quanto o Brewers Association oferecem categorias para cervejas ácidas: Mixed Fermentation Sour Beer, Wild Specialty Beer, Wild Ale, Mixed Cultured Brett Beer, entre outros. No entanto, Diego aponta um problema estrutural, que é o fato de esses guias terem sido pensados para o Norte global.

As Brettanomyces brasileiras, por conta da temperatura e das características locais, tendem a produzir aromas de frutas cítricas, e não o funk terroso esperado pelos estilos europeus e norte-americanos. Portanto, cervejas brasileiras chegam a campeonatos internacionais com características que os guias descrevem como atípicas, mas que, na prática, são a expressão correta do terroir local.

Um ponto técnico importante que Diego enfatiza: Brett Beer não é sinônimo de cerveja ácida. Colocar uma cerveja com acidez lática ou acética na categoria Brett Beer é um erro frequente que pode custar pontos, e que revela uma confusão fundamental entre micro-organismo e resultado sensorial.

No copo: Praia do Meio vs. Já Passou Paulo Lopes

Essas duas cervejas do kit Julgando Forte têm exatamente a mesma receita base. A única diferença é a origem dos microrganismos, o que resulta em perfis completamente distintos.

A Praia do Meio é uma fermentação mista com Brettanomyces B2 isolada na própria praia em questão, além de Lactobacillus e Pediococcus locais, todos da Levteck. Fermentada em barris de carvalho francês por um ano e blendada de cinco barris (1.000 litros), ela chega ao copo dourada e límpida. No aroma, predominam ácido lático, cítrico amarelo indefinido e mel de florada selvagem, com acético discreto ao fundo. No sabor, é muito seca, com acidez persistente e notas de nêspera levemente ácida. Diego aponta que o ápice da cerveja ocorre por volta dos dois anos de garrafa, quando a Brettanomyces ainda vai desenvolver mais complexidade.

A Já Passou Paulo Lopes, por sua vez, é uma cerveja selvagem com microrganismos capturados da fermentação espontânea da manipueira, isto é, do suco da mandioca extraído em engenhos locais. Trata-se de um blend de três safras (25% de 2021, 25% de 2022 e 50% de 2025). Em análise metagenômica, foram encontradas mais de 400 cepas diferentes de Saccharomyces, enquanto a Brettanomyces ficou ativa apenas no primeiro mês e a Pichia foi o microrganismo predominante no longo prazo. O resultado é notavelmente diferente: fenólicos em primeiro plano (pimenta-preta, noz-moscada), frutas brancas (pera, pêssego) e uma textura levemente oleosa, característica atribuída à atividade do Pediococcus. Além disso, traz uma nota de polvilha azedo, elemento tipicamente brasileiro e de difícil explicação para juízes estrangeiros.

O que ficou de aprendizado

  • Fermentação mista, selvagem e espontânea diferem pela origem do micro-organismo; isso determina previsibilidade, controle e identidade sensorial;
  • Brett Beer não é sinônimo de cerveja ácida: confundi-los é um erro técnico grave em concursos;
  • Brettanomyces brasileiras tendem ao cítrico, não ao funk; avaliar com parâmetros europeus coloca o Brasil em desvantagem estrutural;
  • Calibrar o palato antes de avaliar é essencial: suco cítrico, Yakult e um pouco de vinagre ajudam a estabelecer referência sensorial;
  • “Cerveja selvagem não é uma questão de fazer um resultado esperado, mas sim de descobrir novos sabores – Diego da Cozalinda

Ouça o episódio completo

Este post é um resumo do que foi discutido no episódio. Para ouvir a conversa na íntegra – com a degustação ao vivo, os comentários do chat e os detalhes técnicos de cada cerveja – acesse o Brassagem Forte no Spotify, YouTube ou no seu agregador de áudio favorito.

Gostou do conteúdo? Compartilhe com quem produz cerveja ácida.

Continue ouvindo

Episódios relacionados

Ep. 330 junho 29, 2026

Nacional das Acervas e a nova Diretoria Acerva Brasil, com Jana Meireles e Thiago Panda

Uma conversa que detalha o Nacional das Acervas, contextualiza a nova Diretoria e destrincha o futuro dessa ocasião tão importante para os cervejeiros caseiros.

Veja post completo →
Ep. 329 junho 22, 2026 · com Wagner Falci

Madeiras brasileiras também ganham medalhas

Um apanhado geral sobre a aplicabilidade do envelhecimento de cervejas em madeira, com foco em madeiras brasileiras.

Veja post completo →
Ep. 328 junho 15, 2026 · com Diego Rzatki

A Hora Ácida: rolhas

Henrique Boaventura recebe mais uma vez Diego Simão, da Cozalinda, para um papo técnico pertinente para as cervejas ácidas, sobre rolhas.

Veja post completo →