Malzbier: a cerveja que muita gente bebe, poucos assumem, e que representa 28% da produção brasileira

Poucas cervejas despertam opiniões tão divididas quanto a Malzbier. Enquanto alguns consumidores a adoram pelo sabor adocicado, outros a enxergam quase como uma sobremesa engarrafada. No entanto, por trás dessa fama existe uma história rica que atravessa a Alemanha, a industrialização da cerveja e mais de um século de mercado brasileiro.

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Entre um estilo e uma categoria

Curiosamente, a Malzbier nem sequer é considerada um estilo formal de cerveja por muitos guias técnicos. O BJCP, principal referência para cervejeiros caseiros, não a reconhece como um estilo específico. Já a Brewers’ Association, voltada para cervejas comerciais, reserva um espaço para ela. Portanto, a Malzbier ocupa uma posição peculiar: é menos um estilo e mais uma categoria de bebidas com características próprias.

Malzbier - Surra de Lúpulo

Em linhas gerais, trata-se de uma cerveja de baixo teor alcoólico, escura, com forte presença de dulçor e notas de caramelo. Além disso, sua produção envolve pasteurização, um passo fundamental para preservar os açúcares adicionados posteriormente ao processo, prevenindo refermentações após o envase.

Das table beers à bebida nutritiva

A origem da Malzbier está ligada a tradições antigas de cervejas leves consumidas no dia a dia. Na Alemanha, bebidas semelhantes eram associadas às chamadas table beers, cervejas de baixo teor alcoólico destinadas ao consumo cotidiano, inclusive durante as refeições.

Alguns pesquisadores apontam a Vitamalz, desenvolvida pelo cervejeiro alemão Ferdinand Glaab no início do século XX, como uma das precursoras da Malzbier moderna. Entretanto, a história é mais complexa do que parece. Isso porque registros brasileiros mostram anúncios de Malzbier circulando antes mesmo da patente germânica de 1931.

Essa relação entre cerveja, nutrição e saúde também ajuda a explicar o sucesso do produto. Durante séculos, bebidas fermentadas foram vistas não apenas como fonte de prazer, mas também como complemento alimentar. Consequentemente, cervejas de baixo teor alcoólico e com características nutritivas ganharam espaço em diferentes sociedades.

A Malzbier que conquistou o Brasil

Se existe um país onde a Malzbier encontrou terreno fértil, esse país é o Brasil.

Os primeiros anúncios encontrados para Malzbiers, especificamente a da Cervejaria Brahma, datam de 1915. Poucos anos depois, a Antarctica também passou a comercializar sua versão. Desde então, o produto atravessou gerações e permaneceu nos portfólios das grandes cervejarias nacionais. Até hoje!

Esse fato chama atenção porque muitas cervejas desapareceram ao longo do século XX. Enquanto as grandes indústrias reduziram suas linhas e concentraram esforços nas lagers claras, a Malzbier continuou presente nas prateleiras.

Os números ajudam a explicar essa longevidade. Dados do Anuário da Cerveja 2026 (MAPA, ano-referência 2025) mostram que a Malzbier representa 28% de toda a produção brasileira de estilos fora das lagers tradicionais, superando inclusive a IPA. Ou seja, apesar das brincadeiras e preconceitos que cercam a bebida, existe um público consumidor fiel e expressivo.

Quando a propaganda receitava cerveja

Talvez o capítulo mais curioso da história da Malzbier esteja em suas campanhas publicitárias.

Durante décadas, anúncios apresentaram a bebida como nutritiva, fortificante e até recomendada para crianças, gestantes, lactantes e pessoas convalescentes. Hoje essas mensagens parecem absurdas. Contudo, elas refletiam conhecimentos e crenças médicas da época.

Propagandas da década de 1910 descreviam a Malzbier como excelente para “senhoras, crianças e pessoas fracas em geral”. Já nos anos seguintes, surgiram anúncios sugerindo seu consumo durante a amamentação e até como auxílio para recuperação após episódios da Gripe Espanhola!

Propagandas Malzbier - Surra de Lúpulo

Mais tarde, a comunicação migrou para o campo nutricional. A bebida passou a ser comparada a alimentos como ovos, bifes e lanches completos. Além disso, campanhas dos anos 1940 e 1960 destacavam sua capacidade de fornecer energia para trabalhadores e atletas.

Embora essas alegações não tenham respaldo científico atual, elas ajudam a compreender como a Malzbier teve a sua identidade construída junto ao consumidor brasileiro.

O que torna a Malzbier diferente?

Ao contrário do que muitos imaginam, a cor escura da Malzbier não vem necessariamente de maltes torrados, como ocorre em estilos como Stout e Porter.

Sua produção normalmente envolve a adição de xaropes de açúcar, caramelos escuros e maltodextrina. Esses ingredientes aumentam a sensação de corpo, intensificam o dulçor e contribuem para a coloração característica da bebida.

Além disso, após a fermentação, a cerveja é pasteurizada. Dessa forma, as leveduras deixam de consumir os açúcares adicionados posteriormente, preservando o perfil doce que define o produto.

E a Caracu, é Malzbier?

Apesar da associação frequente entre as duas bebidas, a resposta é não.

A Caracu pertence ao estilo Sweet Stout, uma tradição inglesa diferente da Malzbier. Embora ambas sejam escuras e apresentem algum grau de dulçor, seus processos de produção e perfis sensoriais são distintos.

Enquanto a Malzbier depende da adição de açúcares e caramelos para construir seu sabor, a Sweet Stout obtém complexidade principalmente por meio dos maltes escuros e, em alguns casos, da lactose. O resultado é uma cerveja mais equilibrada, com notas tostadas e amargor moderado.

E que é reconhecida enquanto estilo nos principais guias especializados, sem polêmicas ou zonas cinzas de classificação.

Uma sobrevivente improvável

A Malzbier desafia praticamente todas as previsões do mercado cervejeiro. Ela sobreviveu às mudanças de hábitos de consumo, às transformações da indústria e ao avanço das cervejas artesanais.

Além disso, carrega consigo um pedaço importante da história da alimentação, da publicidade e da própria cultura cervejeira brasileira. Talvez seja justamente essa combinação de nostalgia, identidade e sabor que explique por que, mais de um século depois de seus primeiros anúncios no país, a Malzbier continua encontrando espaço nas mesas e geladeiras dos brasileiros. 🍻

Envelhecimento, produtividade e parecer bem: a pressão que não para

No quarto episódio da série Refrescos, no Surra de Lúpulo, Ludmyla Almeida recebe Carolina Oda, Chiara Barros, Daiane Colla e Madu Vitorino para uma conversa sobre medo de envelhecer, produtividade tóxica e estética da saúde. Embora os temas pareçam diferentes, todos passam pelo mesmo ponto: a pressão para continuar funcionando, bonita, atualizada, produtiva e emocionalmente disponível, mesmo quando o corpo e a vida dizem o contrário.

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O medo de envelhecer também é profissional

A conversa começa com o envelhecimento, tema da redação do Enem de 2025. A partir daí, o debate vai para o mercado de trabalho. Carolina Oda fala da chegada aos 40 como uma mistura de crise e libertação. Por um lado, existe a sensação de urgência. Por outro, há algo que só o tempo entrega: repertório, maturidade e mais capacidade de diagnóstico.

No entanto, o mercado nem sempre valoriza essa experiência. Chiara Barros lembra que muitas empresas ainda tratam profissionais mais velhos como menos adaptáveis, enquanto perdem conhecimento acumulado ao demitir pessoas experientes. Além disso, para mulheres, o envelhecimento costuma vir acompanhado de julgamentos estéticos. No homem, o grisalho pode ser visto como charme e autoridade. Na mulher, muitas vezes, vira sinal de desleixo.

Menopausa, maternidade e o corpo no centro da conversa

Daiane Colla traz uma camada essencial: a menopausa. Justamente quando muitas mulheres estão no auge da carreira, podem surgir alterações hormonais, queda de memória, dificuldade de concentração e mudanças cognitivas reais. Ainda assim, muitas seguem trabalhando, estudando, fazendo mestrado, doutorado e sustentando altas demandas.

Madu Vitorino amplia o debate ao falar da maternidade. No puerpério, relata queda hormonal intensa, piora da memória e da concentração. Além disso, lembra que a gestação pode impactar diretamente a carreira de mulheres, especialmente em mercados que ainda penalizam a maternidade. Enquanto homens frequentemente são vistos como mais responsáveis depois da paternidade, mulheres podem perder oportunidades ou enfrentar dificuldade de retorno ao trabalho.

A produtividade tóxica não deixa ninguém descansar

O episódio também discute a sensação de que é preciso estar produzindo sempre. Mesmo quando não há trabalho, parece necessário ler, estudar, treinar, assistir algo relevante ou ocupar o corpo e a mente com alguma atividade. Portanto, o descanso real quase desaparece.

Ludmyla cita dados sobre o aumento dos afastamentos por burnout no Brasil, que passaram de pouco mais de 800 registros em 2021 para quase 5 mil em 2024. A pandemia e o home office aparecem como marcos importantes nessa mudança. Afinal, trabalhar de casa pode salvar tempo e melhorar a vida de muita gente, mas também apagou limites. O computador está sempre perto, o celular nunca desliga e mensagens chegam em qualquer horário.

Chiara conta que, depois da pandemia, tentou fazer tudo ao mesmo tempo para compensar perdas e acabou entrando em colapso. Carolina, por sua vez, fala da ansiedade de quem é autônoma: quando a agenda esvazia, surge o medo de que o trabalho esteja acabando.

Saúde, aparência e a obrigação de performar

A discussão chega também à estética da saúde. Hoje, não basta se alimentar, se exercitar ou cuidar do corpo. É preciso performar saúde. Treinar precisa parecer bonito. Comer precisa parecer correto. Envelhecer precisa parecer controlado.

Por isso, o episódio questiona quando o autocuidado deixa de ser cuidado e vira mais uma cobrança. A busca por saúde pode ser legítima, mas também pode se transformar em opressão quando vira obrigação estética, moral e social.

Para seguir pensando

No fim do episódio, Daiane Colla, deixa uma indicação importante : o livro O cérebro e a menopausa, da neurocientista Lisa Mosconi. A obra é citada como uma leitura relevante para mulheres que estão na menopausa, vão entrar nessa fase ou convivem com alguém passando por ela.

Para quem prefere uma introdução ao tema, também é indicado o episódio do Roda Viva com Lisa Mosconi:

Antes de oferecer respostas fechadas, este Refrescos abre perguntas necessárias. Como envelhecer sem ser descartada, trabalhar sem adoecer, cuidar do corpo sem transformar saúde em performance? Talvez o primeiro passo seja justamente este: parar de tratar cansaço, mudança e limite como falhas individuais. 🍺

Contaminação na cerveja: o que é, onde acontece e por que você precisa entender isso

Falar sobre contaminação na cerveja costuma assustar. No entanto, apesar da complexidade técnica, o tema está diretamente ligado à qualidade do que chega no copo, seja para quem produz, serve ou apenas consome.

Neste episódio do Surra de Lúpulo, Ludmyla Almeida e Ligia Marcondes destrincham o assunto de forma prática, mostrando que entender contaminação é, antes de tudo, entender qualidade.

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O que realmente é contaminação na cerveja

Antes de mais nada, é importante desfazer um mito: cerveja contaminada não faz mal à saúde. Isso acontece porque a própria composição da cerveja – isto é, álcool, pH baixo, CO₂ e presença de lúpulo – cria um ambiente hostil para microrganismos patogênicos.

Por outro lado, isso não significa que está tudo bem. Contaminação, na prática, é a presença de microrganismos indesejados, ou seja, qualquer levedura ou bactéria que não foi intencionalmente adicionada ao processo.

Portanto, o problema não é sanitário, mas sensorial. À medida que esses microrganismos se multiplicam, eles alteram aroma, sabor, aparência e frescor da cerveja. Assim, o consumidor percebe que “tem algo errado”, mesmo sem saber exatamente o quê.

Onde a contaminação acontece no processo

Embora a contaminação possa vir das matérias-primas, a fervura do mosto elimina a maior parte dos riscos. No entanto, a partir do resfriamento, o cenário muda completamente.

A partir desse ponto, várias etapas se tornam críticas:

  • Resfriamento do mosto
  • Fermentação
  • Reutilização de levedura
  • Maturação
  • Envase
  • Equipamentos (mangueiras, conexões, tanques)

Além disso, o ar também é uma fonte constante de contaminação. Ou seja, qualquer descuido, mesmo que pontual, pode ser o início de um problema maior. Como destacado no episódio, “o dia em que você relaxa é o dia zero da contaminação”.

Por isso, a gestão de qualidade não é opcional. Ela é o que sustenta todo o processo.

Gestão de qualidade

Os principais vilões microbiológicos

Entre os contaminantes mais comuns, destacam-se:

  • Leveduras selvagens (como Brettanomyces)
  • Lactobacillus: responsável por acidificar a cerveja
  • Pediococcus: produtor de diacetil (aroma de manteiga)
  • Bactérias acéticas: geram aromas de vinagre em presença de oxigênio

Cada um desses microrganismos impacta o produto de maneira diferente. No entanto, todos têm algo em comum: fogem do controle do cervejeiro.

Por outro lado, existe um ponto interessante. Em contextos específicos, como em cervejas ácidas, alguns desses microrganismos deixam de ser vilões e passam a ser ferramentas. Ainda assim, isso só funciona com controle rigoroso.

Cerveja não pasteurizada: frescor vs risco

A cerveja não pasteurizada entrega mais frescor e intensidade sensorial. Porém, ao mesmo tempo, ela é mais sensível.

Isso acontece porque, ao longo da cadeia – envase, transporte, armazenamento – a cerveja enfrenta calor, oxigênio e movimentação. Consequentemente, esses fatores aceleram reações químicas e crescimento microbiológico.

Por isso, a cadeia de frio seria o cenário ideal. No entanto, na prática brasileira, isso raramente é mantido de ponta a ponta. Logo, o risco aumenta.

O papel crítico do serviço e armazenamento

Se a produção já é desafiadora, o serviço pode piorar tudo.

Linhas de chope mal higienizadas, barris fora de refrigeração e baixa rotatividade são fatores que favorecem a contaminação. Idealmente, a limpeza das linhas deveria ser frequente – até diária. Contudo, na prática, muitos locais fazem isso mensalmente ou menos.

Além disso, usar apenas água não resolve. A limpeza adequada exige produtos alcalinos e sanitizantes aplicados corretamente.

Como identificar uma cerveja contaminada

Mesmo sem treinamento técnico, o consumidor consegue perceber sinais:

  • Turbidez inesperada
  • Alteração de aroma (vinagre, ovo, manteiga)
  • Sabor ácido ou metálico
  • Perda de frescor

Entretanto, nem todos identificam facilmente. Portanto, muitas cervejas contaminadas continuam sendo consumidas sem questionamento, o que reforça a importância da educação sensorial.

Dá para salvar uma cerveja contaminada?

Depende. Em alguns casos, ajustes podem transformar o produto em outro estilo. No entanto, quando há contaminação microbiológica relevante, a decisão mais segura costuma ser o descarte.

Isso ocorre porque o risco não está apenas no lote, mas na possibilidade de espalhar a contaminação para toda a fábrica.

Além disso, embora existam soluções como enzimas e pasteurização, elas não são milagrosas. Portanto, a prevenção continua sendo a melhor estratégia.

Controle é tudo, do tanque ao copo

A discussão deixa uma mensagem clara: a cerveja é um produto seguro, mas extremamente sensível.

Por um lado, ela se protege bem contra riscos à saúde. Por outro, exige rigor absoluto para manter qualidade sensorial. Assim, desde a limpeza dos equipamentos até o serviço no bar, cada etapa importa.

No fim das contas, produzir e servir cerveja é menos sobre evitar erros pontuais e mais sobre construir consistência. Porque, quando a contaminação aparece, ela não costuma vir sozinha. E ignorar o problema quase sempre custa mais caro depois. 🍺

A história da lata de alumínio: como demandas militares levaram a um novo padrão para a cerveja

A lata de alumínio está tão presente no universo cervejeiro que parece ter nascido junto com a bebida. No entanto, a história é bem diferente e muito mais complexa.

Neste episódio da série Cada cerveja, uma história, com o apoio da Abralatas, Ludmyla Almeida, Henrique Boaventura e Gabriel Gurian mostram que a lata é, antes de tudo, fruto de necessidades industriais, científicas e logísticas que atravessam séculos.

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Dos exércitos à indústria: o nascimento da conservação moderna

Para entender a lata, é preciso voltar ao final do século XVIII e início do XIX. Naquele momento, o desafio não era conveniência, mas sobrevivência. Sociedades em processo de urbanização, além de exércitos em campanha, precisavam de alimentos estáveis durante longos períodos, o que até então não se mostrava adequado com as técnicas disponíveis de conservação, como a fermentação, a salga, a defumação etc.

Nesse contexto, surge o trabalho de Nicolas Appert, que desenvolveu um método baseado em calor e vedação hermética. O procedimento consistia em aquecer as substâncias alimentícias e depois acondicioná-las para serem conservadas em garrafas de vidro, parecidas com as de leite, mas escuras, arrolhá-las com a ajuda de um equipamento que garantia firmeza na vedação e submergi-las em um banho-maria de duração variável a depender do alimento em questão. Estabeleciam-se, assim, os princípios da pasteurização, ou seja, da esterilização através do calor, e também do que levaria à emergência dos produtos enlatados.

Garrafas - Appert
Algumas garrafas remanescentes de Nicolas Appert

Posteriormente, a ideia evoluiu e, na Inglaterra, começou a ser aplicada em recipientes metálicos. O método que o senhor Appert propôs é excelente, escreveu Vincenzo Agnoletti, confeiteiro da nobreza de Parma, na Itália, em 1819. “E, aliás, tornou-se na França um costume doméstico corrente. […] Os ingleses aperfeiçoaram-no muito, tanto no que diz respeito à facilidade e economia, quanto à segurança da conservação dos legumes, carnes, etc.”, pois, “enquanto o senhor Appert prefere conservar tais produtos em garrafas de vidro, na Inglaterra são utilizadas latas de folha-de-flandres, cuja tampa é fixada com solda”.

Peter Durand é creditado como o primeiro a fazê-lo utilizando latas feitas do referido material, um composto de ferro e estanho.

Portanto, a lata não nasce com a cerveja. Na verdade, ela surge como solução para conservação de alimentos e só depois é adaptada para bebidas.

Antes da cerveja: as latas e os coquetéis prontos

Curiosamente, a primeira bebida a ocupar as latas não foi a cerveja. No século XIX, coquetéis prontos, o que se chama atualmente de RTDs (Ready to Drink), já eram produzidos, armazenados e vendidos em volume. Primeiro, em garrafas, com receitas em livros especializados voltadas para essa modalidade de preparo. Depois, nas últimas décadas dos 1800, em latas, conforme a urbanização e a industrialização influenciavam as alternativas nos setores de alimentos e bebidas.

RTDs - lata de alumínio

Mas por que as latas ficaram inicialmente restritas a essas bebidas, sem incluir outras, já populares, como a própria cerveja e os refrigerantes?

Havia um desafio técnico importante: a pressão. Enquanto sopas, alimentos sólidos e os drinques prontos não exigiam resistência estrutural, bebidas gaseificadas demandavam embalagens capazes de suportar pressão interna.

Por isso, embora a ideia de envasar cerveja em lata já existisse no início do século XX, foram necessários anos de testes até que a tecnologia fosse viável.

O salto tecnológico: a cerveja entra na lata

A virada aconteceu na década de 1930, quando a American Can Company conseguiu desenvolver um revestimento interno (lining), parecido com o de barris, para que as latas permanecessem intactas e viáveis para o envase de cervejas. Esse recurso impedia reações entre o metal e o líquido e resolvia, inclusive, problemas graves de intoxicação causados por materiais anteriores, como o chumbo das soldas.

Abordada pela American Can Co. em 1935, a Gottfried Krueger Brewing Company, de Newark (NJ), serviu de laboratório para o lançamento desse formato no mercado. E foi um sucesso!

Latas originais da Krueger

A partir daí, a cerveja enlatada chegou ao mercado e rapidamente ganhou espaço. Além disso, fatores como praticidade, transporte mais fácil e potencial redução de custos aceleraram sua adoção.

Entretanto, o material ainda não era o alumínio. Esse só se consolidaria no pós-Segunda Guerra Mundial, sendo introduzido de forma mais estruturada a partir de 1958, com uma versão inteiramente feita do material, que continha 12 onças líquidas, a medida “padrão” de cerca de 350 ml que conhecemos hoje.

Nesse ritmo, em 1969, as vendas de cervejas em lata haviam ultrapassado as de cervejas em garrafa nos Estados Unidos.

A chegada ao Brasil: atraso e adaptação

Embora o alumínio já fosse utilizado nos Estados Unidos desde os anos 1950, o Brasil demorou a adotar a tecnologia. A primeira lata de cerveja no país surge apenas em 1971, com a Skol, utilizando ainda folha-de-flandres, não alumínio.

Além disso, naquele momento, a lógica primordial não era sustentabilidade. Pelo contrário: a lata era vendida como descartável, uma vantagem frente às garrafas retornáveis, que exigiam logística reversa.

No entanto, o mercado não respondeu como esperado. Embora houvesse previsão de substituição total das garrafas em poucos anos, por parte dos responsáveis pela introdução das latas, isso não aconteceu. Resistência do consumidor, custos e estrutura industrial contribuíram para um processo mais lento.

E que nunca foi completado, como se percebe hoje no mercado, que ainda acomoda a cerveja e outros produtos em diferentes envases.

Somente em 1989 a lata de alumínio é implementada de fato no Brasil, consolidando o modelo que conhecemos hoje. Primeiro, pela Skol, já então líder absoluta de mercado. Mas, no mesmo ano, as outras grandes do setor, Antarctica e Brahma, acompanharam a tendência.

Skol - lata de alumínio

Também em 1989 foi inaugurada a primeira fábrica de latas de alumínio do país, em Pouso Alegre-MG.

E hoje reina o alumínio!

Por que a lata venceu?

A dominância da lata não é acaso. Pelo contrário, ela resulta de uma combinação de vantagens técnicas, logísticas e sensoriais.

Primeiramente, a lata é opaca. Isso impede a incidência de luz e reduz drasticamente o risco de “lightstruck”, o famoso aroma de “gambá” causado pela degradação de compostos do lúpulo.

Além disso, o sistema de fechamento (double seam) permite melhor controle de oxigênio, o que reduz a oxidação e preserva aromas e sabores por mais tempo. Consequentemente, a cerveja mantém sua qualidade por mais tempo na prateleira.

Do ponto de vista logístico, a lata também se destaca. Ela é mais leve, ocupa menos espaço e reduz custos de transporte. Como resultado, aumenta a eficiência da distribuição e diminui a pegada de carbono.

Por fim, há o fator sustentabilidade. No Brasil, a taxa de reciclagem das latas de alumínio ultrapassa 95%, colocando o país como referência mundial nesse aspecto.

Sem falar que as latas, hoje, no nosso país, vão muito além da cerveja, servindo de recipientes para drinques prontos, refrigerantes, sucos, vinhos, águas etc.

Muito além da embalagem

A trajetória da lata de alumínio revela algo maior do que uma simples evolução de embalagem. Ela mostra como tecnologia, ciência e mercado caminham juntos, muitas vezes impulsionados por necessidades externas, como guerras, urbanização e logística.

Ao mesmo tempo, evidencia que inovação não acontece de forma linear. A lata levou décadas para se tornar dominante, enfrentou resistência e precisou de diversos avanços técnicos até atingir o padrão atual.

Hoje, portanto, quando abrimos uma lata de cerveja, estamos lidando com o resultado de mais de dois séculos de desenvolvimento. E, embora pareça simples, cada detalhe ali, do material ao fechamento, é fruto de um longo processo de tentativa, erro e refinamento.

No fim das contas, a lata de alumínio não venceu apenas pela praticidade. Ela venceu porque resolveu problemas reais e fez isso melhor do que qualquer alternativa disponível. 🍺

Patrocínio

Este episódio conta com o apoio da Abralatas, entidade que representa um dos setores mais relevantes da indústria de bebidas no Brasil. Com mais de 34 bilhões de latas comercializadas em 2025, o país se posiciona entre os maiores mercados globais dessa embalagem. Além disso, o Brasil lidera mundialmente em reciclagem de latas de alumínio, com índices acima de 95% há mais de uma década. A atuação da Abralatas vai além dos números, promovendo inovação, sustentabilidade e avanços regulatórios em parceria com a indústria, o governo e a sociedade.

De cervejaria a indústria de bebidas: o que muda na prática?

O mercado cervejeiro brasileiro segue crescendo em número de fábricas, mas ao mesmo tempo revela um cenário mais competitivo e exigente. Segundo dados recentes, o Brasil já ultrapassa 1.900 cervejarias registradas, enquanto o consumo de cervejas sem álcool dispara e novas categorias ganham espaço.

Diante disso, surge uma pergunta estratégica inevitável: faz sentido continuar sendo “apenas” uma cervejaria ou é hora de se posicionar como uma indústria de bebidas?

A resposta passa por técnica, legislação, operação e, principalmente, visão de negócio.

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O que realmente muda na produção

A primeira grande diferença entre cerveja e outras bebidas está na fermentação. Enquanto a cerveja depende desse processo, grande parte das bebidas não alcoólicas – e até algumas alcoólicas mistas – são feitas apenas por mistura. Isso muda completamente o jogo.

Além disso, entram novos fatores como:

  • necessidade de pasteurização para estabilidade de prateleira
  • uso mais amplo de aditivos permitidos
  • controle mais rigoroso de carbonatação (geralmente forçada)

Ou seja, tecnicamente, produzir outras bebidas pode parecer mais simples. No entanto, operacionalmente, exige novos controles e decisões.

Surra de Lúpulo - Indústria de Bebidas

Estrutura: adaptar, separar ou sequenciar?

Ao expandir o portfólio, o maior risco é a contaminação cruzada. Por isso, existem três caminhos principais:

  1. Separação física: criar áreas ou plantas diferentes
  2. Equipamentos dedicados: tanques exclusivos para cada tipo de bebida
  3. Sequenciamento de produção: começar com bebidas de menor risco microbiológico e avançar para maior risco

Esse último é comum em estruturas menores. Por exemplo, produzir primeiro refrigerantes, depois coquetéis e, por fim, cerveja.

Além disso, é indispensável reforçar o CIP (Cleaning in Place), com protocolos mais rigorosos e validados.

O ponto crítico: glúten e contaminação

Quando diferentes bebidas compartilham equipamentos, surge um problema delicado: o glúten não sai facilmente com limpeza convencional. Portanto:

  • não basta limpar, é preciso validar processos específicos
  • análises laboratoriais devem ser frequentes, não pontuais
  • a rotulagem precisa seguir uma lógica binária: tem ou não tem glúten

Inclusive, mesmo bebidas naturalmente sem glúten podem ser classificadas como contendo glúten se houver risco de contaminação. Esse é um ponto crítico, pois envolve diretamente a segurança do consumidor.

Regulatório: MAPA, Anvisa e um sistema que se soma

Ao contrário do que muitos imaginam, a legislação não se substitui, ela se acumula. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) regula a produção e registro das bebidas, enquanto a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) entra em temas como rotulagem, suplementos e composição. Ou seja, ampliar o portfólio significa:

  • solicitar alteração de registro no MAPA
  • comprovar capacidade estrutural para novas bebidas
  • revisar documentação técnica (memorial descritivo, fluxogramas, layout)

Além disso, cada novo produto precisa ser registrado individualmente.

O perigo das “zonas cinzentas”

Um dos pontos mais sensíveis hoje é a adição de nutrientes. Apesar de ser tendência global, a regra é clara: não há previsão legal para adicionar nutrientes em bebidas alcoólicas. Isso cria uma zona cinzenta. Alguns produtores arriscam interpretações flexíveis, mas o risco regulatório é alto.

Já nas bebidas não alcoólicas, a adição é possível, desde que validada e estável até o fim da validade do produto.

Rotulagem: onde muitos erram

A transição para indústria de bebidas traz uma mudança significativa na rotulagem. Enquanto bebidas alcoólicas têm regras mais simples, as não alcoólicas exigem:

  • tabela nutricional obrigatória
  • rotulagem frontal (ex.: “alto em açúcar”)
  • controle rigoroso de alegações (“rico em”, “fonte de” etc.)

Portanto, o rótulo deixa de ser apenas informativo e passa a ser um elemento regulatório crítico.

Tributação: o jogo invisível

Nem sempre o produto mais fácil de produzir é o mais lucrativo. Por exemplo, refrigerantes têm alta carga tributária, e algumas categorias exigem reformulação para melhorar enquadramento fiscal.

Isso significa que decisões de portfólio precisam ser multidisciplinares, envolvendo considerações técnicas, contábeis e estratégicas.

Testar antes de investir: o caminho mais inteligente

Diante de tantas variáveis, uma recomendação se destaca: terceirizar antes de internalizar. Produzir como “cigano” permite testar aceitação do mercado, validar estabilidade do produto e reduzir risco financeiro.

Além disso, o registro fica sob responsabilidade de quem produz, facilitando a entrada no mercado.

O que separa quem cresce de quem fecha

No fim, o maior erro não é técnico nem regulatório, é estratégico!

Muitas cervejarias nascem sem planejamento, movidas apenas pela paixão. No entanto, o mercado atual exige:

  • diversificação inteligente
  • posicionamento claro
  • decisões baseadas em dados

Inclusive, a tendência é de maturidade do mercado, com possível aumento no fechamento de fábricas nos próximos anos.

Indústria de Bebidas - maturidade e gestão

Mais do que fazer cerveja

Transformar uma cervejaria em uma indústria de bebidas vai além da ampliação de portfólio. É mudança de lógica do negócio.

Por um lado, abre-se um universo de oportunidades: novos produtos, novos públicos e maior resiliência. Por outro, aumentam a complexidade, o risco e a necessidade de gestão profissional.

Portanto, a decisão não deve ser impulsiva. Ela precisa ser construída com base em estratégia, estrutura e, principalmente, clareza sobre onde se quer chegar. 🍺

Refrescos #3: entre personalidade, solidão e o preço de dar certo

No terceiro episódio da série Refrescos, do Surra de Lúpulo, Ludmyla Almeida, Carolina Oda e Chiara Barros mergulham em um território que vai além da cerveja: comportamento, autoconhecimento, solidão e os efeitos disso tudo nos negócios. A conversa parte de uma provocação simples, mas incômoda: será que estamos preparados para dar certo?

A partir daí, o episódio constrói conexões relevantes entre vida pessoal, carreira e gestão, com implicações diretas para quem atua no mercado de bebidas (e, na prática, para qualquer negócio).

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O teste de personalidade como ponto de partida

A discussão começa com um teste de personalidade desenvolvido no projeto MindMatch, que rapidamente vira ferramenta de reflexão coletiva. Mais do que rotular comportamentos, o teste funciona como um espelho.

Chiara, por exemplo, se reconhece no perfil resolutivo e objetivo: alguém com baixa tolerância para enrolação e alta capacidade de execução. No entanto, ela mesma aponta um ponto crítico: a agradabilidade não é constante, variando conforme o nível de proximidade com as pessoas.

Já Carolina Oda traz um olhar mais estratégico. Ela destaca como o autoconhecimento influencia diretamente a gestão, especialmente ao entender no que você não é bom. Esse ponto é crucial. Muitas lideranças falham não por incompetência, mas por desalinhamento entre perfil e função.

Portanto, o teste, em vez de encaixar pessoas em categorias limitantes, ajuda a tomar decisões mais inteligentes, inclusive sobre carreira, sociedade e liderança.

E se empresas tivessem personalidade?

A conversa evolui naturalmente para o mundo dos negócios. Surge então uma ideia provocadora: será que um CNPJ poderia ter um “teste de personalidade”?

Na prática, a resposta já existe. O que chamamos de cultura organizacional nada mais é do que a extensão da personalidade dos fundadores. Como Carolina aponta, é possível “ligar os pontos” entre comportamento do dono e operação da empresa.

Chiara reforça esse raciocínio com exemplos de consultoria. Muitas vezes, o discurso do empresário não corresponde à prática. Ele diz que quer qualidade, mas prioriza volume. Diz que valoriza equipe, mas não sustenta isso no dia a dia. Como resultado, a cultura real da empresa contradiz a cultura declarada.

Além disso, há um ponto crítico: não existe mudança de cultura de baixo para cima. Ou seja, sem envolvimento da liderança, qualquer tentativa de transformação é superficial.

Isso traz um aprendizado direto: antes de ajustar processos, é preciso ajustar pessoas, especialmente quem lidera.

Refrescos - liderança

Solidão na era da hiperconexão

A conversa então muda de tom e entra em um tema mais sensível: a solidão.

Apesar de estarmos mais conectados do que nunca, o sentimento de desconexão cresce. A solidão, como discutido no episódio, não é ausência de pessoas, mas sim a distância entre as conexões que desejamos e aquelas que realmente temos.

Chiara faz uma distinção importante: estar sozinho pode ser uma escolha saudável; já sentir-se sozinho é outra coisa, e pode levar a quadros mais graves, como depressão.

Além disso, o episódio conecta esse tema ao consumo de álcool. Em muitos casos, o álcool aparece como ferramenta de socialização, mas não resolve questões emocionais mais profundas. Pelo contrário, pode mascará-las.

O recorte de gênero muda tudo

Um dos pontos mais fortes da discussão é o recorte de gênero. A solidão não afeta homens e mulheres da mesma forma.

Por um lado, homens tendem a ter mais dificuldade em construir relações profundas. Por outro, mulheres enfrentam julgamento social mais duro, inclusive no consumo de álcool. Enquanto o excesso masculino é mais tolerado, o feminino costuma ser associado a falha moral.

Refrescos - cerveja e solidão

Além disso, mulheres buscam mais autoconhecimento e terapia, o que também revela uma diferença estrutural na forma de lidar com emoções.

Outro ponto relevante é o impacto da ascensão profissional feminina. À medida que mulheres ganham independência financeira e ocupam espaços de poder, surgem novas formas de solidão, seja pela dificuldade de relacionamento, seja pelo deslocamento em relação a expectativas sociais.

O custo invisível do sucesso

Talvez o insight mais desconfortável do episódio seja este: dar certo pode ser solitário.

Conforme as participantes relatam, crescimento profissional frequentemente implica isolamento. Mais responsabilidade, menos troca. Mais decisões individuais, menos espaço para dividir dúvidas.

Além disso, existe um custo emocional pouco discutido. Sucesso pode gerar inveja, distanciamento familiar e até incompreensão de quem está ao redor.

Portanto, a ideia de sucesso precisa ser revisitada. Afinal, chegar onde você queria não garante que aquele lugar ainda faça sentido.

Sucesso e isolamento

Entre escolhas e consciência

O episódio termina sem respostas fáceis. E isso é um mérito. Autoconhecimento, solidão e sucesso estão interligados de formas complexas. No entanto, algumas direções ficam claras:

  • Entender seu perfil evita decisões ruins de carreira e gestão
  • Cultura organizacional começa no comportamento da liderança
  • Solidão é uma questão estrutural, não apenas individual
  • E sucesso, apesar de desejado, cobra um preço

No fim, a provocação inicial continua válida: não basta querer dar certo, é preciso entender o que isso significa para você e para o seu negócio. 🍺

Turismo cervejeiro: de oportunidade negligenciada a estratégia real de crescimento

O turismo cervejeiro deixou de ser apenas um “extra simpático” para cervejarias e, cada vez mais, se posiciona como um caminho estratégico para geração de receita, fortalecimento de marca e desenvolvimento regional. No entanto, como fica claro na conversa entre Ludmyla Almeida e Ana Cláudia Pampillón para o Surra de Lúpulo, transformar uma cervejaria em destino turístico exige muito mais do que abrir as portas e oferecer uma degustação.

Não perca esse papo!

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Muito além da cerveja: o produto é a experiência

Tradicionalmente, a cervejaria enxerga seu produto como algo que vai para a prateleira do supermercado. Entretanto, ao entrar no universo do turismo, surge uma mudança fundamental de lógica: o produto passa a ser a experiência.

Esse deslocamento não é trivial. Por um lado, exige que o empresário compreenda que há valor econômico em tudo o que acontece dentro da cervejaria. Por outro, demanda planejamento, narrativa e estrutura. Portanto, não basta improvisar um tour. É necessário desenhar uma jornada para o visitante, considerando desde o primeiro contato até o momento da compra final.

Turismo Cervejeiro - tour na fábrica

Além disso, a experiência precisa ser memorável. Caso contrário, ela não gera recorrência. E, como destacado no papo, vender pela segunda vez para o mesmo visitante é o verdadeiro desafio.

Turismo cervejeiro como pilar financeiro – mas com método

Diante de margens apertadas, alta carga tributária e dificuldades de distribuição, o turismo surge como uma alternativa relevante. No entanto, tratá-lo como um pilar financeiro exige disciplina.

Primeiramente, é preciso estruturar o produto turístico. Isso inclui roteiro, atendimento, narrativa e, sobretudo, precificação. Afinal, o turismo envolve uma cadeia mais ampla: guias, agências, transporte e outros intermediários também precisam ser remunerados.

Nesse sentido, iniciativas de capacitação, como as promovidas com apoio do SEBRAE, mostram-se decisivas. Elas ajudam as cervejarias a entender que o jogo mudou. Ou seja, não se trata apenas de vender cerveja, mas de operar dentro da lógica do turismo.

O gargalo invisível: quem vende o turismo

Um dos pontos mais estratégicos levantados é frequentemente ignorado: é preciso, além de preparar a cervejaria, preparar quem vende o destino.

No Brasil, muitas agências são emissivas, focadas em vender viagens para fora, e não em estruturar receptivos locais. Consequentemente, há uma lacuna na capacidade de transformar o turismo cervejeiro em produto comercial escalável.

Por isso, capacitar guias, operadores e agências é tão importante quanto estruturar a experiência dentro da cervejaria. Quando esse elo falha, o fluxo de visitantes não se sustenta.

Experiência que engaja vende mais

O turismo cervejeiro ganha força quando abandona o básico e investe em diferenciação. Degustações e visitas técnicas são importantes, mas não suficientes.

Exemplos práticos mostram o caminho:

  • experiências com balão ao nascer ou pôr do sol combinadas com cerveja;
  • piqueniques em plantações de lúpulo;
  • hospedagens temáticas com chopeiras nos quartos;
  • integração com outros atrativos turísticos, como flores e gastronomia.

Essas iniciativas funcionam porque criam conexão emocional. E, como consequência, aumentam o ticket médio. Afinal, quando a experiência é marcante, a compra deixa de ser racional e passa a ser afetiva.

Turismo Cervejeiro - piquenique

Associativismo: competir menos, construir mais

Outro ponto crítico é o papel do associativismo. Embora cervejarias sejam, em tese, concorrentes, a construção coletiva fortalece todo o ecossistema.

Na prática, os ganhos são claros:

  • maior visibilidade ao comunicar um destino coletivo
  • compartilhamento de conhecimento e recursos
  • criação de produtos integrados
  • suporte em momentos de crise

Além disso, a cooperação permite incluir desde grandes players até pequenas cervejarias, ampliando o alcance e a diversidade da oferta.

O papel (ainda frágil) do poder público

Apesar do potencial econômico, o turismo cervejeiro ainda não ocupa o espaço que poderia nas políticas públicas.

O principal problema não é a ausência total de apoio, mas a descontinuidade. A cada mudança de governo, projetos precisam ser reapresentados, o que gera desgaste e perda de ritmo.

Ainda assim, há caminhos claros:

  • inclusão do turismo cervejeiro em campanhas oficiais
  • presença em feiras nacionais e internacionais
  • sinalização turística (placas, mapas, rotas)
  • uso de dados e pesquisas para embasar decisões

Sem esse suporte institucional, o crescimento tende a ser mais lento e fragmentado.

Um caminho longo, mas inevitável

O turismo cervejeiro no Brasil ainda está em construção. No entanto, os sinais são claros: quando bem estruturado, ele gera valor para toda a cadeia.

Portanto, o desafio não é provar que funciona, mas acelerar sua maturidade. Isso passa por três frentes principais: profissionalização das cervejarias, capacitação dos intermediários e articulação com o poder público.

Enquanto isso, quem sair na frente, estruturando experiências reais e não apenas visitas, tende a capturar uma vantagem competitiva difícil de replicar. 🍺

Cada cerveja, uma história: 6 mitos cervejeiros para 6 anos do Surra de Lúpulo

Celebrar seis anos – isso mesmo, SEIS! – de um podcast como o Surra de Lúpulo num programa sobre história não é apenas olhar para trás. A gente aproveita para revisitar certezas mal explicadas, frases repetidas sem crítica e ideias que o mercado cervejeiro transformou em verdade de tanto insistir nelas. Neste episódio especial, Ludmyla Almeida, Gabriel Gurian e Henrique Boaventura fazem exatamente isso: escolhem seis mitos cervejeiros bastante conhecidos e desmontam cada um deles com história, técnica e contexto.

Ao longo da conversa, fica claro que muitos desses mitos sobrevivem porque são narrativas sedutoras. Eles são fáceis de repetir, parecem fazer sentido e, além disso, ajudam a vender produtos, cursos e até uma certa aura de conhecimento. No entanto, quando se olha com mais atenção, a realidade é quase sempre mais interessante do que o bordão.

Bora celebrar com a gente?

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Idade Média, água e exageros históricos

O primeiro mito abordado no episódio é um dos mais disseminados, o chamado “Grande Mito da Água Medieval”, que já havia sido discutido por muitos medievalistas e depois influenciou considerações de Martyn Cornell, historiador britânico de primeira, que dedicou a vida ao estudo das cervejas.

Fala-se que, na Idade Média, as pessoas não bebiam água porque ela seria imprópria para consumo e, por isso, bebiam – bastante – cerveja. Gabriel explica que essa leitura não se sustenta. Primeiramente, água é e sempre foi essencial à vida. Havia acesso a ela por rios, córregos, chuva e poços, e as populações medievais não eram incapazes de avaliar minimamente o que consumiam, através da aparência e do odor. Além disso, práticas de asseio e limpeza existiam e tinham importância social; não era um período de “gente imunda.”

Alguma desconfiança em relação à água não vinha simplesmente de sujeira ou contaminação, mas de visões médicas e culturais da época, como a Teoria dos Humores. Bebida em abundância, por ser considerada uma substância de temperamento frio, a água poderia provocar, como se acreditava, uma reação adversa no organismo. Vinho ou cerveja, de natureza quente, às vezes seriam preferíveis em determinados momentos do dia, como durante as refeições, inclusive por serem nutritivos e vistos como alimentos.

Mas não se tratava de banimento total do consumo de água! Tudo era uma questão de equilíbrio.

Ou seja, esse mito é um grande embuste.

A água certa para o estilo certo?

Na sequência, o episódio revisita outro mantra clássico: o de que determinadas águas seriam naturalmente ideais para certos estilos de cerveja. Henrique reconhece que, historicamente, isso teve fundamento. Perfis minerais específicos, como os de Pilsen e Burton-on-Trent, influenciaram o desenvolvimento de estilos e facilitaram certas produções.

Só que esse raciocínio não pode ser transplantado intacto para 2026. Com osmose reversa, correções minerais e outras tecnologias, a água deixou de ser uma limitação geográfica rígida. Hoje, ela é uma variável controlável. Assim, o que antes era condicionante histórica virou, em grande parte, questão de processo.

A série sobre águas no Brassagem Forte, com a Gabriela Lando, é muito esclarecedora sobre esse assunto!

Os estereótipos das bruxas não vêm das alewives

O terceiro mito talvez seja um dos mais populares nas redes: a ideia de que a iconografia das bruxas nasceu diretamente das mulheres cervejeiras, que foram perseguidas e banidas dessas posições.

O episódio faz uma distinção importante. Sim, houve apagamento feminino na história da cerveja à medida que a produção saiu do ambiente doméstico e passou a ser profissionalizada e dominada por homens. Mas não, isso não significa que chapéu pontudo, gato, vassoura e caldeirão tenham surgido diretamente daí.

Entre alguns pontos incongruentes, está o fato de que o declínio da produção cervejeira doméstica feminina antecedeu em mais de 100 anos o frenesi e os “julgamentos de bruxas” no Reino Unido que supostamente teriam motivado acusações de bruxaria contra cervejeiras.

O chapéu que alegadamente teria dado origem a essa associação vem de uma imagem de 1672; era um tipo muito comum à época, chamado de “capotain”, e usado tanto por homens e mulheres. Ele aparece sempre em representações da época da rainha Elizabeth I, no século XVI, e em imagens dos primeiros colonos puritanos da América do Norte.

Mitos cervejeiros - Bruxa

Gabriel mostra que essa construção iconográfica das bruxas é posterior e muito mais complexa, reunindo camadas de misoginia, preconceitos religiosos, imaginário popular e outros processos históricos. Portanto, a questão imagética não dá conta do problema da exclusão feminina do fazer cervejeiro na Época Moderna.

Esse tópico em particular conta com dois ótimos textos online, em inglês:

IPA: menos lenda, mais contexto

A conversa também desmonta a velha explicação de que a IPA foi criada especificamente para suportar as longas viagens até a Índia. O episódio mostra que cervejas mais alcoólicas e mais lupuladas já eram conhecidas por sua maior durabilidade. Nesse sentido, a IPA não surge como uma invenção isolada e genial voltada unicamente para esse trajeto, mas como uma adaptação de algo já existente, respondendo a uma lógica comercial mais ampla.

Em fins do século XVIII, cervejas já existentes, as chamadas de October Ales, outonais, fortes e maturadas, passaram a ser enviadas sem essa maturação na “Carreira da Índia”; assim, elas se beneficiavam do tempo embarcadas, em vez de estragarem, como acontecia com tantos outros tipos despachados além-mar.

Mitos cervejeiros - IPA

Além disso, a reputação e o apreço do estilo cresceram muito no mercado interno britânico. Depois, com a revalorização da IPA no movimento craft, essa história foi sendo simplificada e romantizada num “mito de origem” excepcional.

Bohemia não foi a primeira cervejaria do Brasil

Outro mito clássico é o de que a Bohemia teria sido a primeira cervejaria do Brasil. No episódio, Gabriel corrige essa frase: a Bohemia é a mais antiga em operação contínua, o que é diferente de ser a primeira. A distinção não é nada pequena.

As notícias de operações anteriores a 1853 são várias. E a própria Bohemia foi fundada em Petrópolis como filial de outra cervejaria que já existia havia pelo menos 5 anos na cidade do Rio de Janeiro.

Mais uma vez, o marketing ajudou a consolidar uma versão mais simples, memorável e comercialmente útil. Mas que é, no fim das contas, falsa!

Puro malte não é atestado automático de qualidade

O sexto mito fecha o episódio num ponto especialmente sensível do mercado brasileiro: a crença de que cerveja puro malte é necessariamente melhor. O trio explica que essa ideia cresceu a partir de uma combinação de lacuna regulatória, limites para o uso de cereais não maltados, benefício fiscal para cervejas feitas apenas com malte de cevada e, principalmente, propaganda.

Ou seja, foi uma falsa verdade técnica que virou slogan e que hoje se retroalimenta de legitimação pelo próprio slogan criado.

Mitos cervejeiros - puro malte

Henrique reforça que adjuntos como milho e arroz não são, por definição, sinal de produto inferior. Em muitos casos, eles cumprem papel técnico, ajudam no processo, equilibram receita e podem até tornar a produção mais complexa, e não mais simples. O uso de adjuntos aparece em tradições cervejeiras diversas, inclusive em contextos históricos respeitados, como o da Escola Alemã.

Portanto, reduzir qualidade à presença da expressão “puro malte” é uma simplificação pobre.

O que esse aniversário realmente celebra

No fim das contas, o episódio comemorativo de seis anos do Surra de Lúpulo celebra, sim, a longevidade do podcast, mas não só. Também celebra uma postura: a disposição de questionar o que parece óbvio, revisar narrativas repetidas e tratar a cultura cervejeira com mais seriedade, inclusive do ponto de vista histórico.

Porque, nesse universo, bons causos e os mitos cervejeiros sempre terão seu charme. Ainda assim, quando o causo vira dogma, ele empobrece o debate. E é justamente contra esse empobrecimento que esse episódio – aliás, o podcast como um todo – trabalha, mito por mito, gole por gole. 🍻

Criando uma carreira como juíza de concursos de cerveja: estratégia, networking e posicionamento no mercado

Construir uma carreira como juíza de concursos de cerveja raramente segue um caminho linear. Neste episódio do Surra de Lúpulo, Ludmyla Almeida conversa com Aline Ferreira sobre como essa trajetória pode ser estruturada de forma estratégica, combinando julgamento técnico, networking internacional e atuação em comunicação para negócios cervejeiros.

A conversa revela, sobretudo, que ser jurada não é o objetivo final, mas sim um meio para ampliar oportunidades profissionais dentro do setor.

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Da paixão sensorial ao planejamento de carreira

A trajetória de Aline começou longe do mercado cervejeiro. Inicialmente formada em Biologia e atuando com biologia marinha, ela passou a registrar experiências sensoriais com cervejas em um caderno, anotando aromas, sabores e impressões. Esse hábito, embora informal, já indicava uma construção de repertório técnico. Em seguida, veio a produção caseira e o aprofundamento nos estudos.

Contudo, o ponto decisivo ocorreu quando ela decidiu abandonar a biologia e planejar uma carreira no universo da cerveja. A ideia inicial era abrir uma cervejaria, porém, após cursar gestão cervejeira, percebeu que o caminho mais adequado seria unir suas habilidades em administração, marketing e comunicação com o setor. A partir desse momento, o planejamento passou a incluir também a atuação como juíza de concursos.

Ser jurada não paga, mas abre portas

Um dos pontos centrais da conversa é o descompasso entre remuneração e expectativa. O trabalho como jurada normalmente não é remunerado; no máximo, há ajuda de custo ou hospedagem. Ainda assim, Aline enxergou nessa atividade uma forma de gerar valor indireto.

A estratégia foi se valer do julgamento como ferramenta de networking internacional. Ao participar de concursos, ela ampliou sua rede de contatos, conheceu mercados e criou oportunidades de negócios. Dessa forma, mesmo investindo recursos próprios em viagens, transformou a experiência em diferencial competitivo para seus clientes.

Além disso, a imersão em outros mercados permitiu compreender tendências, comportamentos de consumo e formatos de eventos. Esse conhecimento passou a ser aplicado diretamente em consultorias e projetos de comunicação, criando um ciclo virtuoso entre julgamento técnico e atuação estratégica.

Juíza em concurso cervejeiro

Reconhecimento internacional antes do nacional

Outro aspecto interessante é que o reconhecimento veio primeiro no exterior. Aline passou a atuar como jurada/juíza e embaixadora em concursos na América do Sul e na Europa antes de ser convidada para eventos relevantes no Brasil. Essa trajetória invertida evidencia desafios do mercado nacional, que nem sempre valoriza profissionais emergentes.

Com o tempo, a experiência internacional fortaleceu sua reputação, resultando em convites para concursos nacionais importantes. Paralelamente, ela passou a atuar como intermediadora, levando cervejas brasileiras para competições no exterior. Esse trabalho envolve desde contato com cervejarias até logística de transporte, muitas vezes carregando malas cheias de amostras.

Apesar do esforço, essa atuação ampliou a presença brasileira em concursos internacionais e fortaleceu sua posição como ponte entre mercados.

Aline Ferreira - Juíza

Networking como ativo estratégico

Aline reforça que o objetivo não é “ser juíza”, mas usar essa função como ferramenta. O networking pós-julgamento, as conversas informais e a convivência com profissionais do mundo todo geram oportunidades concretas. Atualmente, ela conecta clientes a parcerias internacionais, colaborações e novos mercados.

Essa atuação já resultou em clientes fora do Brasil e projetos que envolvem empresas latino-americanas. Além disso, a experiência internacional permite unir marcas, fomentar colaborações e criar iniciativas conjuntas entre cervejarias e fornecedores.

Comunicação cervejeira: erros comuns do mercado

A conversa também aborda desafios na comunicação das cervejarias. Segundo Aline, um erro recorrente é negligenciar o marketing, delegando a função a alguém sem experiência ou tratando a comunicação como algo secundário. Outro equívoco é esperar que redes sociais gerem vendas imediatas.

Ela destaca que marketing e comercial são complementares. A presença digital constrói reconhecimento de marca, enquanto a conversão depende de estratégias integradas. Além disso, campanhas exigem consistência; resultados raramente são imediatos.

Outro ponto relevante é o equilíbrio entre técnica e comunicação. Nem sempre a nomenclatura técnica do estilo é a mais eficiente para vendas. Em determinados contextos, adaptar a linguagem ao público é mais estratégico, desde que não haja distorção da informação. Por exemplo, chamar uma cerveja de “pilsen” pode facilitar a compreensão do consumidor, mesmo que tecnicamente o estilo seja outro.

Técnica, mercado e formação de público

O episódio também destaca que produzir uma boa cerveja não garante vendas. É necessário entender o público, o contexto e a forma de comunicar. Muitas vezes, estilos menos conhecidos não performam comercialmente, mesmo com alta qualidade.

Assim, a estratégia deve equilibrar precisão técnica com acessibilidade. Além disso, há um desafio contínuo de formação de público no mercado craft, que ainda demanda simplificação da linguagem e aproximação com novos consumidores.

Um caminho construído com estratégia

A carreira como juíza de concursos, portanto, não deve ser romantizada. Ela exige planejamento, investimento pessoal e visão de longo prazo. Contudo, quando usada estrategicamente, pode se tornar uma poderosa ferramenta de networking, aprendizado e posicionamento profissional.

Mais do que medalhas ou status, o julgamento funciona como plataforma para negócios, conexões e crescimento. Esse é o ponto central: a função de jurada não é o destino final, mas parte de uma estratégia maior para construir relevância e oportunidades no mercado cervejeiro, como bem demonstra a trajetória de Aline. 🍺

Movimento Zero: moderação, mercado e o futuro do consumo de álcool

Neste episódio do Surra de Lúpulo, Ludmyla Almeida conversa com Mariana Gutterres sobre um tema cada vez mais presente no mercado de bebidas: a moderação e a ascensão das alternativas sem álcool. Criadora do Movimento Zero e com mais de 13 anos de experiência no setor, Mariana traz uma perspectiva que mistura vivência corporativa, transformação pessoal e análise de tendências. O resultado é uma reflexão profunda sobre comportamento, oportunidades de mercado e mudanças culturais no consumo.

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Do mercado premium à transformação pessoal

Mariana construiu sua carreira no universo do vinho, passando por importadoras e multinacionais de luxo. Nesse período, viveu intensamente a dinâmica do setor, que mistura trabalho, relacionamento e consumo. Entretanto, com o tempo, percebeu que o álcool estava presente em praticamente todas as dimensões da sua vida. Eventos, treinamentos, reuniões e celebrações giravam em torno da bebida. Além disso, havia uma normalização do excesso, algo frequentemente incentivado pelo próprio ambiente.

Ao olhar em retrospecto, Mariana identifica padrões que hoje considera preocupantes. Por exemplo, a associação constante entre diversão e consumo elevado, bem como a vulnerabilidade em ambientes com muito álcool. Além disso, ela aponta a naturalização do consumo antes de dirigir e a ausência de políticas claras de moderação. Dessa forma, o que parecia parte da cultura profissional passou a gerar questionamentos.

Movimento Zero

A ruptura que deu origem ao Movimento Zero

A mudança não aconteceu de forma abrupta. Durante a pandemia, Mariana passou por perdas pessoais e decidiu priorizar a saúde mental. Consequentemente, iniciou um processo gradual de transformação, que incluiu ajustes na alimentação, prática de exercícios, melhora do sono e meditação. Paralelamente, começou a reduzir o consumo de álcool e percebeu as dificuldades sociais associadas a essa decisão.

Nesse contexto, surgiram cobranças veladas no ambiente profissional. Perguntas como “como vender sem beber?” evidenciavam o quanto o consumo estava enraizado na cultura do setor. Ao mesmo tempo, Mariana notou o preconceito social contra quem decide não beber. Ainda assim, ela manteve a decisão e começou a compartilhar sua experiência, dando origem ao Movimento Zero.

Heineken sem álcool - Movimento Zero

Moderação, socialização e o papel das bebidas sem álcool

Um dos pontos centrais da conversa é a evolução das bebidas sem álcool. Segundo Mariana, esses produtos facilitam a socialização sem a necessidade do consumo alcoólico. Além disso, representam uma transição mais suave para quem deseja reduzir ou abandonar o álcool. Ela destaca que a qualidade das opções disponíveis tem melhorado, especialmente com a diversificação de estilos e sabores.

Eventos organizados pelo Movimento Zero demonstram essa mudança. Em encontros totalmente sem álcool, os participantes experimentam cervejas, vinhos e drinks alternativos, além de discutir novas formas de socializar. Consequentemente, o consumo consciente deixa de ser visto como restrição e passa a ser entendido como escolha.

Cerveja sem álcool

O desafio social de não beber

Apesar do crescimento do tema, Mariana aponta que o maior desafio não é o hábito em si, mas o entorno social. Muitas vezes, quem decide não beber precisa justificar a escolha. Essa pressão evidencia o quanto o álcool está culturalmente normalizado. Ainda assim, ela defende a autonomia individual e evita discursos impositivos, incentivando cada pessoa a encontrar seu próprio equilíbrio.

Oportunidades de mercado e novos consumidores

Além da dimensão comportamental, o episódio também aborda o potencial econômico do segmento sem álcool. Mariana explica que o Movimento Zero tem sido procurado para curadoria e consultoria. Restaurantes e bares, por exemplo, enfrentam dúvidas sobre armazenamento, comunicação e inclusão desses produtos nas cartas. Portanto, existe uma lacuna entre a oferta e a estratégia de implementação.

Outro ponto relevante é que o sem álcool não substitui o consumo tradicional, mas amplia o público. Assim como restaurantes passaram a incluir opções vegetarianas, as bebidas sem álcool podem aumentar o ticket médio e atrair novos consumidores. Além disso, públicos específicos, como pessoas que não bebem por religião ou saúde, passam a ter alternativas.

low alcohol - Surra de Lúpulo

Uma mudança cultural em construção

O Movimento Zero surge, portanto, como reflexo de uma transformação maior. O consumo consciente não significa necessariamente abstinência, mas uma relação mais equilibrada com o álcool. Ao mesmo tempo, o mercado começa a enxergar que a moderação pode coexistir com crescimento econômico.

Essa mudança ainda está em construção. No entanto, a tendência aponta para um cenário em que diversidade de opções e autonomia do consumidor serão fatores-chave. Assim, mais do que uma moda, a moderação se consolida como parte do futuro do consumo de bebidas. 🍺