Bamberg: Patrimônio da Humanidade… e da Cerveja
Passando pela Altes Rathaus, um edifício histórico construído em 1386 sob uma ilha artificial do rio Regnitz, seguindo em direção a Bamberger Dom, logo à direita, na rua Dominikanerstraße, fica um prédio de três andares com paredes brancas e janelas e portas verdes ornadas com flores.
Para algumas pessoas, esse é o lar do bar de uma das mais antigas cervejarias de Bamberg (desde 1405), a Schlenkerla. Mas, para mim, é o conceito de paraíso.

Andar pelas ruas de pedra desgastadas pelo tempo da Cidade Velha é se perder na história. A cada esquina (se é que aqui podemos chamar o encontro de ruas sinuosas e apertadas assim), sentimos que o tempo parou. De qualquer ponto da cidade, podemos olhar para o alto e ver a imponente Catedral, fazendo sombra para tudo abaixo dela, ou ainda escutar o som do rio Regnitz com suas águas geladas e rápidas. Mas, hoje, vamos sobre um tópico específico: cerveja!
Bamberg fica na Alta Francônia, norte da Baviera, numa das regiões com a maior concentração de cervejarias (mais de 300!) da Alemanha, talvez do mundo. Aqui, é importante explicar uma questão que justifica muito esse número: os Alemães são muito apegados ao seu bar local, seja o bar da quadra, da rua ou do bairro onde ele mora. Creio que existam alemães que tenham bebido a vida inteira no mesmo bar, simplesmente para manter a tradição.
A cidade não fica longe disso, atualmente conta com dez cervejarias e outras dezenas de bares e biergartens sendo a mais antiga fundada em 1333 (Klosterbräu) e a mais jovem em 2004 (o Kron Prinz). Não é difícil imaginar uma cidade com esse número de cervejarias, mas Bamberg é relativamente pequena, com seus menos de 80.000 habitantes.
Mas o que a cidade tem de mais distinto é um estilo de cerveja que nasceu de uma limitação técnica e que foi preservado em algumas cervejarias locais: a Rauchbier.
Nos primórdios, a etapa de secagem do malte era feita em fogo aberto, no caso de Bamberg, geralmente era utilizada madeira de faia, abundante na região. Isso dava origem a a maltes mais escuros e com sabor e aroma defumado, características que acabam impactando diretamente no sabor da cerveja. Conforme as técnicas de malteação evoluiram, outros mecanismos foram empregados para secar o malte, sem gerar cor nem defuma-los. Mas duas cervejarias na cidade mantiveram essa tradição: a Schlenkerla e a Spezial.
Schlenkerla
Falar sobre essa cervejaria e ser imparcial é uma tarefa difícil para mim. Ela foi a responsável pelo meu amor por cervejas defumadas e tem um espaço separado dentro do meu coração. Uma das coisas que mais me chocou e que mudou minha forma de enxergar os bares acontece com frequência aqui: as pessoas não necessariamente precisam sentar em mesas para consumir, é frequente ver a parte externa do bar (na rua mesmo) cheio de pessoas em pé tomando cerveja, assim como pelos corredores nos dias mais frios. Você pode estar “turistando” e degustando um copo de uma das melhores Rauchbiers que existem sem se preocupar se tem uma mesa disponível (basta devolver o copo ou arcar com o custo do depósito feito previamente e levá-lo para casa).
Além do ambiente gótico com cadeiras e mesas já desgastadas pelo tempo que dão um charme extra ao local e dos melhores pratos da culinária alemã, você também encontra umas das melhores cervejas defumadas. Na verdade, todas as cervejas são defumadas!
Hefeweizen e Märzen são servidas o ano todo mas alguns estilos como Doppelbock e Heller são sazonais.
Uma curiosidade sobre a Schlenkerla é que ela mesma defuma seu malte, usando madeira de faia envelhecida por 3 anos até chegar ao ponto ideal para ser usada na defumação.

Spezial
Saindo um pouco da Cidade Velha, passando pela Kettenbrücke, chegamos a Brauerei Spezial. Uma porta grande abre caminho para o salão principal, onde as mesas compridas e coletivas são dispostas perto de um aquecedor de porcelana centenário. Aqui, o destaque fica para a Lager e para Märzen, ambas feitas com maltes defumados que transbordam um equilíbrio e delicadeza ímpar. Além de cervejaria, a Spezial também é uma Gasthaus, permitindo que você se hospede no mesmo lugar (ok, na parte superior do prédio) onde as cervejas são servidas.

Mas não somente de Rauchbiers vive Bamberg. A cidade conta com outras cervejarias que têm, em suas torneiras, exemplares de primeira classe de vários estilos alemães.
Poderíamos começar atravessando a rua. Imediatamente em frente à Spezial fica a Brauerei Fässla, famosa por sua Gold-Pils (uma German Pils sensacional) e sua Zwergla (exemplar do estilo Munich Dunkel). Ela também é uma Gasthaus, o que torna difícil a escolha do lugar onde você vai ficar.

Seguindo caminho, aproveitando a bela paisagem que costeia o rio, você chega em mais duas cervejarias, muito frequentadas por locais: a Brauerei Keesmann e a Mahr’s Brau. A primeira se destaca por sua Munich Helles e por sua Weissbier. Já a segunda, por sua Helles Bock.
A essa altura da viagem, você já deve estar cansado (ou não), mas certamente precisa fazer o esforço de voltar para a Cidade Velha e fazer um exercício (depois de tanta cerveja, vai ser uma boa ideia) iniciando a subida do morro onde encontrará mais algumas cervejarias. Logo no início, você irá se deparar com a Klosterbräu, a mais antiga cervejaria da cidade, e seu ambiente familiar. Não é incomum encontrar famílias inteiras na mesa, com crianças sentadas desfrutando da companhia dos seus pais ou trabalhadores que terminaram seu turno e agora aproveitam um momento de descanso com seus copos de cerveja.
Baterias recarregadas, continuamos o caminho morro acima (eu sei, parece cansativo, mas compensa) onde chegaremos à Spezial Keller, um biergarten da Spezial (lembra? passamos há pouco tempo por ela) que fica ao lado do Observatório de Bamberg. Preciso dizer que uma das cenas mais lindas da minha vida foi um entardecer de inverno com uma leve neve caindo e a cidade de Bamberg ao fundo. Aproveite mais alguns passos e conheça o Wilde Rose Keller, um pouco mais acima na rua.

Por fim, se você quiser explorar ainda mais a cidade, testando os limites da sua capacidade de bater pernas subindo morro, vale a ida à Greifenklau Brauereigasthof, talvez a cervejaria mais “local” de todas, frequentada basicamente por pessoas que moram na região e alguns pouco aventureiros que chegam até lá. Pessoas jogando carta, brincando e se divertindo fazem parte da atmosfera (não espere um tratamento diferenciado por ser turista).
Antes de terminar, não poderia deixar de mencionar mais dois lugares: perto da estação de trem, fica a Maltaria Weyermann, que tem uma visita guiada (em inglês e alemão) que permite você conhecer o interior da fábrica e entender um pouco mais do processo de fabricação dos maltes (assim como um pouco da história da cidade) e provar algumas das cervejas produzidas pelos estagiários (cervejeiros profissionais que se inscrevem para fazer um estágio na maltaria). E nos limites da cidade, fica a Kaiserdom, última cervejaria da lista, mas que não tem um espaço para desfrutar seus produtos no local.
Se eu consegui te deixar com vontade de conhecer Bamberg, meu objetivo foi alcançado. Lembre de mim quando estiver no Spezial Keller, degustando uma Märzen e olhando para a cidade ao entardecer. É bem provável que estarei aqui, sentindo falta desse pedaço do paraíso.