Sobre o episódio
Durante muito tempo, o café especial foi tratado como um universo para iniciados. Moedores caros, métodos diferentes, vocabulário técnico e discussões sobre pontuação acabaram criando a impressão de que apreciar café exigia um conhecimento prévio que muita gente não tinha.
O Bloco do Catuaí nasceu justamente para encurtar essa distância. Apresentado por Mari Mesquita e coproduzido pela Pint Network, o podcast usa o café como ponto de partida para discutir origem, produção, consumo e cultura de forma acessível, sem abrir mão da profundidade.

Depois de dez episódios na primeira temporada, Mari voltou ao Surra de Lúpulo para conversar com Ludmyla Almeida sobre os aprendizados do projeto, os planos para a próxima fase e os desafios de ampliar a conversa sobre café especial para além dos profissionais do setor.
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Uma segunda temporada mais plural
Com quase onze safras de experiência no mercado, Mari atua em consultoria, treinamento, extração e análise sensorial. No Bloco do Catuaí, porém, o desafio é diferente: transformar conhecimento técnico em conversas que façam sentido tanto para quem trabalha com café quanto para quem apenas gosta de beber uma boa xícara.
A segunda temporada manterá o formato quinzenal, com episódios mais longos, e pretende ampliar ainda mais o leque de vozes e territórios representados. A ideia é trazer profissionais de diferentes regiões do Brasil e explorar temas que conectem produção, consumo, cultura e mercado.
Ao mesmo tempo, o podcast pretende se aproximar de quem não frequenta feiras, não trabalha com café e talvez nem saiba por onde começar. Por isso, temas técnicos serão explicados por especialistas diretamente envolvidos neles. Um protocolo de avaliação, por exemplo, pode interessar ao profissional e ao consumidor que encontra uma pontuação na embalagem.

O consumidor de café mudou
Um dos pontos centrais da conversa foi a percepção de que existe um grande público entre dois extremos: de um lado, os coffee geeks, que acompanham lançamentos de equipamentos e discutem métodos de extração; do outro, consumidores que compram sempre o mesmo café sem buscar muitas informações. Entre esses grupos cresce uma parcela de pessoas curiosas, interessadas em entender melhor o que estão consumindo, mas sem a intenção de transformar o café em hobby.
As empresas entenderam esse movimento e a mudança já aparece nas gôndolas. Informações sobre origem, variedade e características do produto estão cada vez mais presentes nas embalagens, enquanto cafeterias e torrefações encontram um público disposto a explorar novos sabores.
Além disso, a alta do preço do café nas últimas safras diminuiu a distância entre o café tradicional e o especial. Para muitas pessoas, passou a fazer mais sentido gastar um pouco mais por um produto selecionado, rastreável e maior qualidade percebida.
Mas democratizar o café vai além do preço. Significa tornar a informação mais acessível, reduzir o medo de errar no preparo e mostrar que apreciar um bom café não exige equipamentos caros nem conhecimento técnico aprofundado.

Menos julgamento, mais experimentação
No café, o preparo doméstico faz parte da experiência. Porém, o excesso de regras sobre métodos e equipamentos pode afastar quem está começando.

Mari defende que um bom café não depende de equipamentos caros. Usar um coador simples ou comprar o café já moído não arruína a experiência, embora moer os grãos na hora normalmente traga mais aroma e frescor à bebida.
A conversa também questionou alguns mitos. Torra escura não significa necessariamente baixa qualidade, assim como adoçar o café não deveria ser tratado como um erro. Para avaliar pureza e qualidade, Mari recomenda observar o selo da ABIC ( Associação Brasileira da Indústria de Café), que monitora produtos vendidos no varejo.
Novas regiões, formatos e pesquisa
As viagens recentes de Mari revelam uma produção brasileira cada vez mais diversa. Ela conheceu cafés da Serra dos Morgados, no norte da Bahia, e iniciativas com canéforas em Presidente Figueiredo, no Amazonas. Ao mesmo tempo, produtores vêm explorando fermentações capazes de criar perfis sensoriais cada vez mais distintos.

A conversa também abordou formatos que ganham espaço no mercado, como cafés instantâneos de maior qualidade, cápsulas e concentrados prontos para consumo. Assim, surge uma reflexão: até que ponto a busca por praticidade altera a relação das pessoas com o ritual de preparar café?
Por fim, Ludmyla e Mari anunciaram o início da construção de uma pesquisa independente sobre o consumo de café no Brasil. O objetivo é entender hábitos, critérios de compra e a forma como os brasileiros se relacionam com cafés tradicionais e especiais.
Café especial para mais gente
Com uma nova temporada a caminho, o Bloco do Catuaí busca aprofundar a conversa sem criar barreiras para quem está começando — porque falar de café especial também significa falar de pessoas, hábitos, acesso, trabalho, território e escolhas cotidianas.

Leia e escute Mari Mesquita também no episódio #293 – Quando a cerveja divide o trono: o café especial, o ritual e a cadeia por trás da xícara
Acesse o blog do Bloco do Catuaí e maratone a 1ª temporada.