Sobre o episódio
O que acontece quando deixamos de olhar para o Brasil, no singular, e passamos a beber os Brasis?
Essa é a provocação que norteia Na Língua, a zine criada pela BeberÚ para ampliar o debate sobre bebidas brasileiras, cultura, memória, território e identidade. Nesta semana, Ludmyla Almeida recebeu Bia Amorim e Aline Smanioto para conversar sobre o lançamento da publicação e as reflexões que deram origem ao projeto.

A proposta nasce de uma trajetória anterior. Antes deste projeto, Bia e Aline já desenvolviam reflexões sobre cultura alimentar e bebidas por meio da Sommelieria Pindorama, iniciativa que ajudou a consolidar a visão que mais tarde daria origem à BeberÚ: estimular novas formas de pensar, comunicar e experimentar o beber brasileiro.
Na Língua surge como um desdobramento natural desse percurso, mas também como uma ferramenta para ampliar a conversa, reunindo diferentes vozes, territórios e experiências em torno de uma pergunta central: quais histórias escolhemos contar quando falamos sobre bebidas brasileiras?
Foto: Ana Ohler
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Beber os Brasis é recusar a pasteurização do gosto
Uma das ideias centrais do episódio é que não cabe mais falar de “o Brasil” como se existisse uma única estética, uma única experiência ou uma única forma de beber. Afinal, estamos falando de um país atravessado por diferentes territórios, biomas, ingredientes, culturas, memórias e modos de vida. Por isso, a escolha da palavra Brasis não é apenas uma figura de linguagem, mas como escolha política, cultural e sensorial.

Mapa: IBGE
Nesse sentido, a zine questiona a padronização do gosto. Muitas vezes, o mercado empurra consumidores e produtores para um funil de referências: os mesmos sabores, estilos, repertórios e narrativas. Ao olhar para o local, para os pequenos produtores e para histórias que frequentemente ficam à margem, Na Língua propõe outros caminhos possíveis para a cerveja brasileira e para as bebidas brasileiras de forma mais ampla.

Capa:Cafécoado Estúdio
Ampliar repertórios não é apagar tradições
A conversa também passa por uma crítica recorrente à formação de sommeliers e profissionais de bebidas: a dependência quase automática de repertórios europeus e estadunidenses. No entanto, Bia e Aline não propõem substituir uma tradição por outra. Pelo contrário, a ideia é ampliá-las.
As histórias da Bélgica, da Alemanha, da Inglaterra e de outros centros tradicionais continuam importantes. O problema surge quando elas se tornam a única lente possível. Na Língua convida o leitor a olhar também para as Américas, para as Áfricas, para os povos originários, para os saberes afro-indígenas e para práticas que já existiam por aqui muito antes de serem invisibilizadas, desvalorizadas ou tratadas como curiosidades exóticas.
Pensando nisso, as convidadas tocam em uma questão fundamental: gosto é uma construção histórica e cultural. As referências que usamos para descrever aromas, sabores e experiências não são neutras. Quando profissionais de bebidas recorrem apenas a ingredientes, frutas e elementos distantes da realidade brasileira, acabam criando barreiras para parte do público.
Por que descrever tudo a partir de referências importadas quando temos jabuticaba, açaí, mandioca, meles brasileiros, amburana, jaquitibá-rosa e tantos outros ingredientes presentes no nosso cotidiano? Ampliar o repertório não significa abandonar tradições consagradas, mas reconhecer que existem muitas outras histórias, sabores e referências capazes de enriquecer a forma como entendemos e comunicamos as bebidas brasileiras.

Fermentar o paladar, contar outras histórias
A fermentação aparece na conversa não apenas como um processo químico, mas também como uma metáfora para a transformação cultural. Assim como as leveduras transformam ingredientes em novas bebidas, novos repertórios podem transformar a forma como enxergamos o que comemos, bebemos e valorizamos.
Esse movimento passa por elementos presentes no cotidiano de muita gente: conservas, iogurtes, kefir, compotas, ervas cultivadas no quintal e modos de fazer transmitidos entre gerações. Práticas que muitas vezes foram associadas ao atraso ou à falta de sofisticação reaparecem aqui como fontes legítimas de conhecimento, identidade e inovação.
Por isso, a ancestralidade abordada em Na Língua não surge como algo distante, folclórico ou restrito ao passado. Ela aparece em experiências concretas do cotidiano: no pote reaproveitado pela avó, na bebida feita em casa, no ingrediente colhido no quintal, no boteco do bairro, no saber que continua vivo em pequenas cidades, comunidades e cozinhas familiares. A zine propõe que o mercado de bebidas não apenas pesquise sobre esses repertórios, mas reconheça valor neles.

Foto: Preah
Uma publicação gratuita e acessível
Embora aborde temas complexos, Na Língua foi pensada para ser uma publicação gratuita e acessível. A escolha do formato zine não é casual. Mais livre do que um livro técnico e menos rígida do que uma revista acadêmica, a publicação online permite combinar texto, fotografia, ilustração, colagem, cartum, frases soltas e diferentes formas de expressão que ampliam as possibilidades de narrativa.
Essa proposta também se reflete na curadoria, que não se limita a especialistas em bebidas. A publicação reúne olhares de áreas diversas, com nomes como Preá, Flávia G. Pinho, Raquel Tupinambá, Mari Mesquita, Yumi Shimada, Pamela Queiroz, Gabriel Gurian e André Dahmer. Essa multiplicidade reforça uma ideia central do projeto: para falar de beber os Brasis, é preciso ouvir muitas vozes, muitos territórios e muitas memórias.
O copo também precisa emocionar
A conversa retorna ao mercado cervejeiro e à responsabilidade de transformar brasilidade em algo mais profundo do que apenas marketing. Para Bia e Aline, falar de brasilidade vai muito além de usar ingredientes brasileiros como adereço, criar rótulos caricatos ou transformar saberes tradicionais em novidade gourmetizada. É preciso fazer com técnica, escuta, ética, coletividade e, sobretudo, sabor.
A zine aponta para um caminho em que cerveja brasileira, bebidas brasileiras e cultura alimentar caminham juntas. Nesse caminho, pilsen, Orval e tradições europeias podem continuar no copo, mas também deve haver espaço para Manipuera, Catharina Sour, madeiras brasileiras, leveduras locais, meles nativos e bebidas que façam sentido no território de onde surgem.
No fim, talvez a principal provocação de Na Língua seja justamente essa: não basta contar boas histórias sobre o beber brasileiro; é preciso criar condições para que esses produtores, ingredientes, saberes e práticas continuem vivos. Porque, quando uma bebida consegue emocionar, ela entrega mais do que técnica ou sabor — ela carrega memória, identidade, pertencimento e futuro.
Você pode ler a zine Na Língua de forma gratuita em https://beberu.com.br/na-lingua-zine-beber-brasil
Leia e escute Bia Amotim também no episódio Cerveja Artesanal independente e nomenclatura

