Sobre o episódio
A cachaça é uma das bebidas mais brasileiras que existem. Ainda assim, o próprio consumidor do país muitas vezes conhece pouco sobre como ela é produzida, o que diferencia um bom destilado e por que tantos pequenos alambiques continuam fora da formalidade.
Para entender esse cenário, Ludmyla Almeida conversou com Máira Campanari, quarta geração à frente da Campanari, cachaça de alambique produzida em Monte Alegre do Sul, no Surra de Lúpulo.

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Da grappa à cana: uma história de quatro gerações
A história da família começa em 1901, quando Luigi Campanari chegou da Itália. Depois de cerca de 30 anos trabalhando em fazendas de café na região de Serra Negra, ele comprou um sítio em Monte Alegre do Sul. Luigi conhecia a destilação da grappa; porém, como não havia uva disponível na região, adaptou o conhecimento à matéria-prima abundante por ali: a cana-de-açúcar. Assim nasceu uma tradição que passou por Adolfo Campanari, chegou a Neno Campanari e, hoje, continua com Máira.

Máira cresceu dentro desse universo, mas no início seguiu outro caminho, acadêmico e profissional, longe do alambique. Em 2023, no entanto, o pai avisou que pretendia fechar o negócio por causa das dívidas. Ela deixou o trabalho, voltou para Monte Alegre do Sul e tentou encontrar uma saída. Como reduzir custos significaria alterar um processo que Neno não aceitava comprometer, a solução foi vender diretamente ao consumidor. Foi então que Máira começou a produzir vídeos sobre cachaça, processo produtivo e rotina do alambique. O que nasceu como estratégia de sobrevivência acabou ocupando uma lacuna de comunicação no setor.
Fazer cachaça é simples. Fazer bem é outra história
Segundo Máira, fazer cachaça parece simples: fermentar e destilar. A complexidade está nos detalhes. Na Campanari, a fermentação utiliza microrganismos do próprio ambiente, com um preparo de fermento que leva milho cultivado pela família há décadas. A preparação da fermentação leva de 12 a 15 dias e, depois, o mosto segue para destilação em alambique de cobre. O produto-base é o mesmo em toda a produção; o que muda o perfil final são principalmente a madeira e o tempo de armazenamento.

A conversa também desmonta uma associação comum entre cachaça e a sensação de “descer queimando”. Máira relaciona esse desconforto à acidez volátil e destaca a importância da higiene durante a fermentação. A legislação permite até 6 gramas de açúcar por litro sem que a bebida precise ser classificada como “adoçada”, enquanto a Portaria MAPA nº 539/2022 estabelece os atuais padrões de identidade e qualidade da cachaça. Para ela, cumprir a legislação é um primeiro degrau, mas não necessariamente sinônimo de excelência.
Essa preocupação com qualidade tem raízes antigas na história da Campanari. A partir dos anos 2000, Neno passou a se aproximar de pesquisadores de universidades como USP, Unesp e Unicamp. Concursos daquela época combinavam análise química e sensorial e, posteriormente, o alambique virou espaço de pesquisa para estudantes de mestrado e doutorado. A parceria durou cerca de 15 anos e aproximou conhecimento prático e científico.
O enorme desafio da formalização

O problema vai além da qualidade. Em 2025, o Brasil chegou a 1.538 estabelecimentos elaboradores de cachaça registrados no MAPA, contra 1.266 em 2024. Ainda assim, Máira descreve um universo muito maior de produtores informais. Em Monte Alegre do Sul, segundo ela, existem 38 alambiques e apenas o seu é legalizado. Para pequenos produtores, o custo e a burocracia de adequação são barreiras relevantes, sobretudo porque as exigências estruturais podem se aproximar das impostas a operações industriais muito maiores.
Ao mesmo tempo, há oportunidades. Em julho de 2026, o INPI reconheceu a Indicação Geográfica Circuito das Águas Paulista, na modalidade Indicação de Procedência, para a cachaça de alambique produzida em nove municípios, incluindo Monte Alegre do Sul. A chancela pode fortalecer turismo, identidade regional e percepção de valor. Na Campanari, aliás, a visitação ao alambique já é a principal fonte de renda.

Tradição que muda para continuar
O futuro pensado por Máira não passa necessariamente por produzir muito mais. A prioridade é preservar rastreabilidade, contato com o processo e qualidade. Para ela, tradição não significa permanecer igual: ao longo de quatro gerações, quase tudo mudou. O que precisa continuar é o cuidado.
Talvez aí esteja também uma pista para o mercado brasileiro de cachaça: crescer não apenas em volume, mas em conhecimento, formalização e valor percebido. Afinal, antes de convencer o mundo sobre a riqueza da cachaça, o setor ainda tem um enorme espaço para fazer o próprio brasileiro entender melhor o que existe dentro do copo.

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