Surra de Lúpulo

Podcast Surra de Lúpulo, ep. 50, Amnésia alcoólica: o que lembramos e o que nos contam, com NaruHodo!

Ep. 50 · abril 1, 2021

Sobre o episódio

No episódio 50 do Surra de Lúpulo, nosso podcast de cerveja artesanal, tivemos o prazer de receber mais uma vez (nosso papo anterior foi no episódio 36) o publicitário Ken Fujioka e o doutor em psicologia Altay de Souza, criadores e apresentadores do podcast de ciência NaruHodo! para falar sobre um tema que tem tudo a ver com o dia 1º de abril: amnésia alcoólica! E, antes que a gente se esqueça (ba dum tsssssss!), os dois já alertam para os bebedores de plantão: absolutamente qualquer pessoa está suscetível a se esquecer das coisas depois de uma quantidade de bebida X.

Para ficar claro como se dá a relação entre o consumo de álcool e a perda da memória, Altay explica que o que faz a pessoa começar a esquecer os registros durante o consumo de bebidas varia de acordo com diversos fatores, entre eles peso, idade e gênero; mas, a fórmula mais importante para entender essa lógica é quantidade de álcool ingerida x velocidade do consumo. “Pessoas que vão intercalando o consumo de álcool com água, bebendo um ou dois copos a cada novo copo de cerveja, tendem a ser menos suscetíveis a porres muito severos e à amnésia alcoólica. Não é porque a água ajude a filtrar a quantidade de álcool no sangue: ela ajuda porque simplesmente espaça o tempo de ingestão da bebida e faz com que a pessoa diminua a relação álcool x velocidade”.

“Se eu não lembro eu não fiz.”

Mas o que de fato acontece para que a amnésia alcoólica ocorra? “Nós não esquecemos as coisas por igual porque temos diferentes tipos de memória. A mais comum, e mais usada por nós, é a memória declarativa, que é aquela que registra os fatos enquanto narrativa, criando assim o contexto da situação social vivida. Cada novo fato é como se fosse um carimbo num papel, e esses carimbos vão se sobrepondo ao longo do tempo. O álcool afeta a velocidade das sinapses e faz com que nossa capacidade de processamento fique bem mais lenta e com que alguns “carimbos” não sejam feitos durante esse período. Por isso é tão comum que a pessoa que passou por um episódio de amnésia alcoólica se lembre da noite anterior apenas em flashes – ou seja, ela só registrou alguns dos “carimbos” -, e, em geral, depois que resgata alguma lembrança acionada por pista. Exemplo: fulano não se lembra de ter dançado sem roupa, mas, quando você dá uma pista do ambiente [dançando sem roupa perto da pessoa de camisa vermelha], a memória declarativa é recuperada e a pessoa cai em si”.

“Eu não bebo muito, mas a pessoa que eu viro depois de beber, essa sim, bebe pra caramba!”

E o que explica o curioso caso de pessoas superresistentes ao álcool, que parecem nunca se esquecer do que estão fazendo ou das coisas ao redor? “Na verdade isso é uma impressão falsa. Geralmente as pessoas superarticuladas também sofrem o efeito da amnésia alcoólica e é facil perceber isso fazendo um teste. Se você pergunta algo relacionado À memória de curto prazo, a pessoa consegue te responder. Mas peça alguma informação mais antiga e você vai ver essa pessoa criando uma confabulação, ou seja, contando histórias elaboradas e longas que servem para dar tempo ao cérebro de acessar aquela única informação necessária que está distante. Essas pessoas demoram mais a perceber conscientemente que estão bêbadas, mas o corpo em geral começa a dar sinais claros um pouco antes disso: o soluço é um deles”, explica Altay.

“A saideira é uma falácia: na verdade, ela é só a última garrafa da qual você se se lembra.”

Mas, por mais que os episódios de esquecimento relacionados ao consumo de álcool acabem se tornando anedóticos e sejam socialmente vistos como um traço cultural pitoresco, muitos deles podem prejudicar a memória e gerar consquências mais graves quando associados ao alcoolismo, por exemplo. “A amnésia crônica associada ao consumo de álcool é provocada pela chamada Síndrome de Korsakoff, que é uma severa deficiência de vitamina B1 (tiamina)“, explica Altay.

Da Wikipedia:

Muitas vezes a vítima não tem consciência de sua condição. A amnésia anterógrada está relacionada com o comprometimento da memória de curto prazo, ou seja, o doente se torna incapaz de formar novas memórias a partir do momento em que desenvolve a doença, e a amnésia retrógrada está relacionada à memória de longo prazo, assim o doente perde grande parte da memória que havia se formado antes da doença.

É baseado nessa severa condição que o neurologista Oliver Sacks (em “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu“) relaciona a síndrome de Korsakoff à perda da identidade, pois vítima de uma amnésia retro-anterógrada o doente perde por inteiro sua linha biográfica, sua história, e permanece incapaz de construir outra, sendo obrigado a viver como uma pessoa sem história de vida. A memória é fundamental para a formação do senso de identidade na consciência.

Como consequência desse severo quadro é que ocorre a confabulação, que seria uma tentativa do doente de preencher suas lacunas mnemônicas com imaginações e ficções aparentemente verossímeis, nas quais ele próprio poderia acreditar. Outra consequência seria a desorientação temporoespacial, claramente causada pela incapacidade da pessoa de medir sua existência no tempo.[4]

Com o tempo, o declínio de atividade mental pode evoluir para demência, coma e morte. É uma causa comum de morte de moradores de rua e pacientes psiquiátricos internados.

 

Continue ouvindo

Episódios relacionados

Ep. 316 julho 2, 2026 · com Fernanda Brito

“Quem fala com todo mundo não fala com ninguém”: como a Ruera construiu território de marca na cerveja artesanal

"Quem quer falar com todo mundo, fala em silêncio." Ludmyla Almeida conversa com Fernanda Brito, sócia da Ruera, sobre território de marca, construção de comunidade e os desafios de criar uma cervejaria independente com identidade forte em um mercado cada vez mais competitivo.

Veja post completo →
1:08:09
Ep. 315 junho 25, 2026

Malzbier: a cerveja que muita gente bebe, poucos assumem, e que representa 28% da produção brasileira

Muito além da cerveja doce, a Malzbier carrega uma trajetória centenária que mistura nutrição, propaganda, cultura cervejeira e tradição industrial no Brasil.

Veja post completo →
Ep. 314 junho 18, 2026

Envelhecimento, produtividade e parecer bem: a pressão que não para

Um debate sobre envelhecimento, menopausa, maternidade e a pressão constante por performance no trabalho e na vida.

Veja post completo →