Surra de Lúpulo

Papo de Guarda Ep.2 – Bolada cervejeira ⚽️

dezembro 5, 2022

Sobre o episódio

O Papo de Guarda é uma colaboração entre a Academia da Cerveja e o podcast Surra de Lúpulo. No episódio de hoje, Ludmyla e Leandro, do Surra de Lúpulo, fazem uma goleada de perguntas cervejeiras ao goleiro da vez, Alexandre Esber, da Academia da Cerveja. Ouça na íntegra:

 

 

Ludmyla, nossa IPAcondríaca, faz a primeira pergunta ao Alexandre: 

 

⚽️ Afinal, o que são cervejas trapistas?

 

 

Esber:  A cerveja trapista é tão simples quanto uma cerveja que foi feita por monges da ordem trapista. Os monges e padres têm ordens dentro da igreja, e uma delas é a ordem trapista, de 1692, que surgiu na Abadia Notre Dame, na França. Então vem da ordem de São Bento, e eles têm os votos; castidade, pobreza e obediência. E um deles é: estabilidade. Eles fazem queijo, mel, chocolate e também, em alguns casos, fazem cerveja. Mas trapista não é um estilo cervejeiro; se eles fizessem uma milkshake Ipa ainda assim seria trapista.

 

No Brasil, temos dois mosteiros trapistas, mas nenhum deles produz cerveja ainda. O mosteiro da Boa Vista, que fica em Santa Catarina, e o mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo, no Paraná; eles produzem bolo, geleia e biscoito.

 

⚽️ Cerveja trapista tem data de validade?

 

 

Esber: Na verdade, toda cerveja no Brasil vai ter prazo de validade; é uma exigência da ANVISA. A cerveja que não tem prazo de validade é a que tem mais de 10 % de álcool, e aí as cervejas trapistas, vão ficar abaixo de 10% então precisa ter data de validade.

 

⚽️ E a cerveja de Guarda, o que é isso?

 

 

Esber: Cerveja de Guarda é aquela cerveja que você guarda por um tempo para ver o que acontece. Aí muita gente começou a guardar cervejas diferentes e perceberam que algumas cervejas se adaptam melhor à guarda e outras não se adaptam. Mas primeiro a gente precisa entender ao que elas devem “se adaptar”, exemplo: quero ver se a cerveja fica mais frutada… E o que percebemos é que cervejas com alto índice de álcool são as que melhor se adaptam à guarda, assim como cervejas com maior densidade e cervejas mais ácidas. 

 

Recomendação para guardar: local escuro, fresco, arejado e com pouca variação de temperatura. Outro ponto é guardar sua cerveja de pé, para evitar a oxidação do líquido em contato com a tampa. 

 

⚽️ Quais são os estilos favorecidos para a guarda?

 

 

Esber: Não gosto de falar estilos um por um, porque têm uma lógica para a guarda. Por exemplo, as melhores cervejas para a guarda são cervejas com densidade maiores, uma ris vai evoluir muito bem, por exemplo. Cervejas como double, triples vão evoluir bem também, e cervejas como barley wines. Primeiro é preciso entender o que você quer quando guarda uma cerveja? O que você espera que aconteça? 

 

O resultado de cada guarda é uma aula para entendermos sobre tempo, sabores e também para expandir nossa biblioteca sensorial.

 

⚽️ Quais são os vilões da cerveja de guarda?

 

 

Esber: O primeiro ponto, o vilão é a expectativa. Você guarda a cerveja por dois anos, e acha que quando abrir vai ser a melhor coisa do mundo! Não é assim que funciona… Mas vilão físico mesmo não pode ter luz nem variação de temperatura. Nós fizemos um teste, sobre envelhecimento de cerveja, e ficamos esquentando e esfriando em semanas e ela envelheceu seis meses. Então é ao abrigo da luz, local fresco e arejado e uma média de tempo estipulado, além de uma noção do estilo.

 

Mudando de tópico, Leandro, apresentador do Surra de Lúpulo, pergunta:

 

⚽️ Como retirar o álcool da cerveja?

 

 

 

Esber: Vamos contra toda a natureza do fermento, da levedura, que é o organismo mais antigo encontrado. E a vida dela é produzir álcool. Mas como conseguimos produzir cerveja sem álcool? Tem duas formas mais comuns, a primeira a gente interrompe a fermentação quando a levedura começa a produzir álcool. A levedura é um serzinho vivo e como todo ser vivo, ela tem um ciclo de vida: nasce, cresce e morre, né. Então tem um momento, em que ela está se preparando para produzir álcool, e logo que ela faz a viradinha da curva, o cervejeiro interrompe a fermentação e não deixa a levedura. Eu consigo produzir cervejas com 0,5% de álcool, com fermentação interrompida. A segunda forma de produzir cerveja sem álcool  é bem legal, que é deixar a levedura produzir álcool, ser feliz, e no final realizar a extração do álcool com equipamentos. Esse é o método mais recente. 

 

⚽️ O cervejeiro caseiro pode tentar fazer esse processo em casa?

 

 

Esber: É mais difícil, mas pode fazer. A grande evolução que a gente tem, na parte das cervejas caseiras, como insumos e coisas novas, é o advento das leveduras que não tem capacidade de fermentar maltose, chamadas maltose-negativas. Ou seja, você tem uma levedura, e essa característica é uma outra cepa de saccharomyces, que não tem capacidade de fermentar o principal açúcar que existe no mosto cervejeiro. A partir do momento que temos uma levedura mosto-negativa, é capaz de produzir uma cerveja com açúcares que não foram fermentados e com baixos níveis alcoólicos. Não recomendamos cervejeiros caseiros iniciantes a se aventurar com esse tipo de produção no começo, mas cervejeiros caseiros profissionais conseguem fazer sim.

 

⚽️ A retirada do álcool depois da cerveja pronta, melhora as características finais da cerveja?

 

cervejeira

 

Esber: A gente consegue deixar a cerveja muito mais próxima a sua versão original, então é uma técnica que, com os equipamentos projetados para isso, você consegue deixar a cerveja casadinha com o sabor original. No final, com a destilação à vácuo você consegue em 30 e poucos graus, evaporar o álcool. Então com essa tecnologia pode deixar muito próxima à composição original O desafio dos cervejeiros, após o processo, é restituir os sabores que foram embora com o álcool.

 

⚽️ Cerveja sem álcool pode virar cerveja de guarda?

 

Foto por Matthew Ashton – AMA/Getty Images

 

Esber: Não deixe para amanhã a cerveja que você pode beber hoje, risos. A cerveja sem álcool não pode virar cerveja de guarda não. Ela pode durar até seis meses.

 

⚽️ Pode beber cerveja sem álcool e dirigir? Quantas tomar para passar no teste do bafômetro?

 

 

Esber: Com 0,5% de álcool dá pra tomar cerveja e não ser pego no bafômetro. Em 2015, o INMETRO fez um teste sobre isso, onde os participantes bebiam de duas a três garrafinhas de cerveja sem álcool, e o sangue não deu indícios que havia álcool. 

 

Sobre o painel de degustação; o que é ser um degustador?

 

 

Esber: Degustador não precisa ser sommelier! A pergunta que me fazem direto é como virar degustador, se a pessoa precisa de algum dom, sendo que não precisa. Você precisa reconhecer gostos e sabores de forma normal, e você precisa de tempo. Aí você faz diversos exercícios de reconhecimento de cheiros do dia a dia (produtos de limpeza etc). Passou por essa fase? Passar por um processo de gostos básicos. E vai testando uma bebida inserindo aos poucos pitadinhas de sal, para ver até quando passa imperceptível. E aí, passamos para a cerveja. E aí vamos para o painel de degustação, degustando todas as cervejas e tirando notas, para entender o perfil de cada cerveja. 

 

Gostaram dessa boleada cervejeira com diversas perguntas inesperadas?

Até a próxima!

 

Continue ouvindo

Episódios relacionados

Ep. 316 julho 2, 2026 · com Fernanda Brito

“Quem fala com todo mundo não fala com ninguém”: como a Ruera construiu território de marca na cerveja artesanal

"Quem quer falar com todo mundo, fala em silêncio." Ludmyla Almeida conversa com Fernanda Brito, sócia da Ruera, sobre território de marca, construção de comunidade e os desafios de criar uma cervejaria independente com identidade forte em um mercado cada vez mais competitivo.

Veja post completo →
1:08:09
Ep. 315 junho 25, 2026

Malzbier: a cerveja que muita gente bebe, poucos assumem, e que representa 28% da produção brasileira

Muito além da cerveja doce, a Malzbier carrega uma trajetória centenária que mistura nutrição, propaganda, cultura cervejeira e tradição industrial no Brasil.

Veja post completo →
Ep. 314 junho 18, 2026

Envelhecimento, produtividade e parecer bem: a pressão que não para

Um debate sobre envelhecimento, menopausa, maternidade e a pressão constante por performance no trabalho e na vida.

Veja post completo →