Surra de Lúpulo

Franquias de bar cervejeiro: o que você compra e o que pode dar muito errado

Ep. 301 · março 12, 2026
Ouça também em: Spotify ↗ YouTube ↗

Sobre o episódio

Neste novo episódio do Surra de Lúpulo, Ludmyla Almeida conversa com Joice Pauli, diretora de varejo da Cervejaria Stannis, sobre um tema que atravessa o mercado inteiro, embora quase nunca apareça com profundidade: franquias. Afinal, depois de anos falando de bares, cervejarias, erros e acertos, faltava encarar outra pergunta que dói: o que acontece antes da primeira torneira abrir? E, principalmente, onde estão os riscos que ninguém posta no Instagram.

Para abrir o assunto, Ludmyla puxa a memória de uma franquia de bares cervejeiros que explodiu em 2012, virou símbolo da expansão da cerveja artesanal e, com o tempo, sentiu as intempéries do mercado, a ponto de estar hoje perto de sumir. A diferença é que, naquela história, era uma franquia de bar, não um modelo ligado a uma cervejaria com produto próprio, que é a proposta discutida aqui. Ou seja: o jogo é outro, mas os perigos continuam.

Vem entender essa história!

MAS ANTES, CONHEÇA E APOIE QUEM APOIA O SURRA:

🍺Cervejaria Stannis – Grande parceira oferece desconto para os nossos ouvintes! Use o cupom SDL12 e ganhe 12% de desconto em todo site

🍻Cervejaria Dogma – Ela, que tem uma gama de rótulos que vão desde os estilos mais simples até cervas mais elaboradas, agora também é nossa parceira! Use o cupom SDL7 e ganhe 7% em todas as cervejas no site.

🌿Lúpulos 1000alt – Lúpulos premiados para garantir a melhor qualidade da sua cerveja. Ouvintes do Surra têm 10% com o cupom SURRADELUPULO10.

🧪Pinnacle Leveduras – Leveduras especiais e selecionadas para atender as necessidades da sua cervejaria.

Da aviação para a cerveja: processos, pessoas e propósito

Joice conta que veio de um mundo “oposto” – o da aviação –, mas trouxe algo que combina perfeitamente com hospitalidade: processos replicáveis com maestria. Ainda assim, a virada na carreira não aconteceu “porque cerveja é legal”. Pelo contrário: no começo, a cerveja era coadjuvante. O que convenceu Joice foi a percepção de que, desde as conversas com os fundadores (Denis e Jorge), havia um foco muito claro em pessoas como propósito. Além disso, a Engenharia de Produção ajudou a conectar indústria e operação; e, com o tempo, a qualidade do produto reforçou a confiança na marca, que cedo conquistou reconhecimento em concursos (incluindo o CBC, em Blumenau).

Essa base, propósito + processo + produto, vira então o centro do argumento do episódio: franquia é replicação consistente de experiência, não mera expansão.

Stannis - franquias

Como uma cervejaria vira franquia: linha do tempo e modelos

A Stannis não começou com fábrica: começou com um pub em Jaraguá do Sul-SC (cidade de cerca de 150 mil habitantes), vendendo somente produto próprio enquanto ainda produzia como cigana. A demanda foi tão grande que, no início, planejaram 4 mil litros e… venderam isso em 15 dias, chegando a fechar o bar por falta de produto; um “case” que virou até material de marketing, embora não tivesse sido intencional.

A decisão de estruturar o franchising veio mais tarde: final de 2019, pouco antes da pandemia. A partir daí, buscaram suporte da Xerto (referência em franchising) para validar se o modelo era escalável. Os passos iniciais aconteceram durante a pandemia e, então, as primeiras unidades começaram a surgir em 2024/2025.

Hoje, a Stannis trabalha com modelos diferentes, porque nem todo candidato cabe no mesmo investimento e nem toda cidade suporta o mesmo formato. Além do pub, há a Tap, um modelo de autosserviço com “tap wall” onde o cliente coloca crédito e consome por ml. E, ainda, estão finalizando um novo conceito ligado a esportes de raquete, o Stannis Raquete Bar, surfando a tendência de bem-estar e tentando preencher um “gap” de experiência fora das quadras.

Raquete - Beach Tennis -Cerveja

O que o franqueado compra: confiabilidade, redução de risco e velocidade

Quando alguém entra em uma franquia, segundo Joice, o que se compra primeiro é confiabilidade. Em seguida, vêm marca, processo, produto e know-how, tudo para reduzir risco, porque, se fosse para correr sozinho, a pessoa abriria um bar independente.

A Stannis reforça essa confiança com lastro: são cerca de 89 receitas, e 67 já receberam prêmios, o que ajuda a marca tanto no PDV quanto no off-trade e no próprio franchising. Ainda assim, Joice lembra que o franqueado muitas vezes coloca ali economias de décadas, o que torna a escolha “quase mais aventureira que um casamento”. Por isso, além de vender, a franqueadora precisa proteger o candidato e a própria marca.

Custos, retorno e a parte que ninguém romantiza

Os investimentos variam por modelo. A Tap Wall pode começar na faixa de R$ 136–140 mil; um modelo com estrutura mais “de loja/alvenaria” fica em torno de R$ 210–220 mil; e um pub completo pode chegar a R$ 900 mil, por ser mais complexo (cozinha, equipamentos, refrigeração, etc.). No retorno, a expectativa gira em torno de 12 a 20 meses, mas isso depende de variáveis como ponto, dias de funcionamento e volume (ex.: projeção de 800 litros/mês em um tap wall dentro de um desenho de operação).

Aqui, entra um alerta essencial: sazonalidade existe. Meses fortes podem “fazer o ano”, enquanto outros trazem baixa natural (Joice cita, por exemplo, como certas épocas mexem com o mercado em Santa Catarina). Portanto, o franqueado precisa de gestão mínima para não confundir “dinheiro pingando” com lucro infinito, e se enrolar com retiradas, pro labore e dívidas.

Pub Stannis - franquia

COF: o raio-x que assusta, mas protege

O papo também traduz o temido COF (Circular de Oferta de Franquia) como um “raio-x” do negócio. Ele assusta porque pode ter mais de 100 páginas, com história da empresa, balanços, regras, multas, valores e prazos. Ainda assim, a Stannis insiste em um caminho com mais transparência: fazem 3 a 4 conversas antes de enviar o COF e recomendam leitura com assessoria, porque franquia não deveria ser contrato “draconiano”.

Além disso, Joice ressalta um ponto legal importante: após receber o COF, o candidato tem 10 dias para analisar sem pressão, antes de avançar para o contrato de fato.

Para quem franquia não é: dinheiro rápido, aversão a gente e preguiça de operar

Quando Ludmyla pergunta “quem não deve abrir um bar de cerveja”, a resposta vem direta: quem quer enriquecer rápido, quem acha que em seis meses vai estar tirando férias longas em Miami, e quem imagina que vai ser sócio-investidor sem encostar na operação. Mesmo quando há investidor, a franqueadora quer conhecer quem estará na linha de frente, porque bar é trabalho duro.

E tem um critério quase inegociável: gostar de pessoas. A operação deve fazer o cliente sair melhor do que entrou; se isso não acontece, a casa falhou. Somado a isso, é preciso gostar de cerveja e entender minimamente o universo da cerveja independente, que tem dinâmica diferente de “cerveja de massa”.

Stannis - Franquia

Quando cervejaria vende produto e o bar vende experiência

No fechamento, Ludmyla amarra uma percepção valiosa: há poucos exemplos no Brasil de cervejarias trabalhando franquias de modo profissional, e isso pode entrar no radar como estratégia para escoar produção e planejar crescimento com mais previsibilidade. Joice complementa com uma síntese poderosa: a cervejaria vende a cerveja; o bar vende a experiência. E é essa combinação que fixa memória e constrói recorrência.

Se você pensa em franquia de bar cervejeiro, talvez a pergunta real não seja “quanto custa?”. Em vez disso, é: você está pronto para operar pessoas, processos e propósito por tempo suficiente para o dinheiro fazer sentido? 🍺

Continue ouvindo

Episódios relacionados

Ep. 316 julho 2, 2026 · com Fernanda Brito

“Quem fala com todo mundo não fala com ninguém”: como a Ruera construiu território de marca na cerveja artesanal

"Quem quer falar com todo mundo, fala em silêncio." Ludmyla Almeida conversa com Fernanda Brito, sócia da Ruera, sobre território de marca, construção de comunidade e os desafios de criar uma cervejaria independente com identidade forte em um mercado cada vez mais competitivo.

Veja post completo →
1:08:09
Ep. 315 junho 25, 2026

Malzbier: a cerveja que muita gente bebe, poucos assumem, e que representa 28% da produção brasileira

Muito além da cerveja doce, a Malzbier carrega uma trajetória centenária que mistura nutrição, propaganda, cultura cervejeira e tradição industrial no Brasil.

Veja post completo →
Ep. 314 junho 18, 2026

Envelhecimento, produtividade e parecer bem: a pressão que não para

Um debate sobre envelhecimento, menopausa, maternidade e a pressão constante por performance no trabalho e na vida.

Veja post completo →