Surra de Lúpulo

Previsões para a cerveja artesanal em 2026: maturidade, consolidação e o fim do hype das NEIPAs

Ep. 288 · novembro 27, 2025
Ouça também em: Spotify ↗ YouTube ↗

Sobre o episódio

Mais um fim de ano que se aproxima, e os olhos do Surra de Lúpulo se voltam para o futuro da cerveja artesanal. O que nos aguarda em 2026?

Para tentar responder essa e outras perguntas, recebemos Bruno Moreno, da Cervejaria Dogma – que agora também é Mecenas Empresarial do Surra! Pincelamos um punhado de aspectos, da maturidade do mercado nacional a padrões e tendências de consumo que vêm e vão. Então aperte o play e vem com a gente.

MAS ANTES, CONSIDERE APOIAR QUEM APOIA O SURRA:

🍺Cervejaria Stannis – Grande parceira oferece desconto para os nossos ouvintes! Use o cupom SDL12 e ganhe 12% de desconto em todo site

🍻Cervejaria Dogma – Ela, que tem uma gama de rótulos que vão desde os estilos mais simples até cervas mais elaboradas, agora também é nossa parceira! Use o cupom SDL7 e ganhe 7% em todas as cervejas no site.

🌿Lúpulos 1000alt – Lúpulos premiados para garantir a melhor qualidade da sua cerveja. Ouvintes do Surra têm 10% com o cupom SURRADELUPULO10.

🧪Pinnacle Leveduras – Leveduras especiais e selecionadas para atender as necessidades da sua cervejaria.

O mercado de cerveja artesanal chegou à vida adulta – e isso dói

O mercado de cerveja artesanal brasileiro entra em 2026 num daqueles momentos em que a empolgação dá lugar à maturidade. Além disso, os dados são teimosos: enquanto os Estados Unidos viveram momentos em que o craft chegou perto de 15% de participação, aqui seguimos estacionados entre 0,8% e 1%. A mesma estimativa que já se fazia em 2015. Fica a sensação é de que caminhamos, produzimos, inovamos, mas o tamanho do nosso espaço no mercado total permanece quase imóvel.

Bruno Moreno enxerga isso com clareza: o consumo não deve explodir em 2026. Consequentemente, o bolo continua do mesmo tamanho. O que muda é o número de pessoas dividindo ele. E esse número tende a cair. Sem romantização, basta olhar para o que mais tem girado ultimamente: tanques usados. Portanto, é o sintoma mais explícito de que a ressaca chegou para quem entrou sem base sólida.

Cerveja Artesanal - Surra de Lúpulo

Lud define esse momento como uma espécie de “limpeza de mercado”: marcas que nasceram do impulso de ter um rótulo próprio, de realizar um sonho, mas sem plano de negócio, capital de fôlego ou diferenciação real. Isso não é exclusividade nossa, os Estados Unidos passaram por dois ciclos assim. Entretanto, a diferença é que, para nós, ainda é a primeira grande onda de ajuste. Dói mais, mas é natural.

Dança das cadeiras entre grandes e pequenas

A questão que surge na sequência é inevitável: quem vai comprar quem? As grandes corporações, como Ambev e Heineken, hoje têm pouco apetite para novas aquisições e muito foco em enxugar portfólio. Além disso, a expectativa de que independentes comprariam outras independentes também parece distante: faltam caixa, estabilidade e, acima de tudo, uma estratégia muito clara para consolidar marcas. O exemplo recente da CBCA ilustra bem como consolidar sem fundamento pode virar um labirinto de perdas, promoções incessantes e dificuldade de gestão.

Por outro lado, Bruno vê espaço para grupos de bebidas que queiram diversificar portfólio e até fundos de investimento que, mais à frente, procurem marcas independentes maduras, com bom fluxo de caixa e imagem forte. Ainda assim, aquela fantasia romântica de que “o grande compra o pequeno porque admira o trabalho”, essa já ficou no passado.

Entre o hype cansado e o consumidor esquecido

Se existe uma ferida aberta no mercado, ela tem nome e sobrenome: o hype da New England IPA. Durante quase uma década, o estilo foi tratado como o centro gravitacional da cerveja artesanal. Assim, isso criou um problema: padronização. Bases muito parecidas, fermentação que puxa fruta em excesso, variações mínimas nos blends de lúpulo. Uma saturação sensorial difícil de ignorar, e que vem cansando quem bebe e quem produz.

Lud verbaliza o incômodo geral: ninguém aguenta mais beber a mesma coisa com rótulos diferentes. Bruno explica a origem técnica da monotonia: enquanto uma West Coast IPA permite que o lúpulo brilhe de verdade, a NEIPA leva tudo para o mesmo canto frutado. Consequentemente, quem gosta de nuances perde interesse. Quem gostava do hype, começa a buscar outra coisa.

Cerveja Artesanal - Hocus Pocus

Mas a solução não é trocar um hype por outro. Para Bruno, o futuro está em “pequenos hypes”: ciclos curtos de estilos clássicos, resgate da diversidade, noites em que se bebe quinze estilos diferentes… E não quinze latas iguais. Além disso, a Dogma já vem aplicando isso ao investir em lagers variadas, linhas belgas, estilos ingleses, Porters, Stouts tradicionais e experimentações mais secas e limpas, sempre fugindo da repetição.

Quem está bebendo?

Há outro ponto delicado: o consumidor envelheceu. A base que entrou no mercado há dez ou quinze anos está mais madura, com menos ímpeto para caçar novidade semanal e mais vontade de beber “cerveja com gosto de cerveja”. Assim, uma parte desse público se sente esquecida porque muitas cervejarias passaram a produzir apenas estilos de hype, e abandonaram a boa lager, a Pilsen bem feita, as belgas, as Bitters, as Porters “raiz”.

Educar sem ser arrogante vira necessidade estratégica. E isso não depende só das cervejarias: bares, taprooms, distribuidores e quem atende no balcão também têm papel decisivo. A diferença entre o que vende no bar e o que trava na distribuição mostra isso claramente. No bar, tudo vende; na distribuição, se não é IPA, trava. É o canal, não o estilo, que determina o apetite do consumidor.

Consumidor

E o “Ano da Lager”? Ainda não chegou, e talvez não chegue. Para uma lager artesanal ganhar grande escala, ela precisa competir em preço com Heineken, Spaten e Beck’s. A elasticidade do consumidor é limitada. Além disso, em bares, quando a Pilsen da casa está disponível, ela domina. Quando falta, a lager mais cara vende rápido, mostrando que as pessoas até pagam mais, mas não quando há comparação direta. É psicológico.

O debate sobre as cervejas sem álcool também entra nessa lógica. O mercado cresce, mas ainda é o nicho do nicho, e extremamente sensível a preço. Para Bruno, quem bebe cerveja sem álcool geralmente não gosta de cerveja. Mesmo assim, existem projetos sérios como ETAPP, Sim! Cerveja e Beba Lucy, que dialogam com públicos que vão além do beer geek: atletas, religiosos, pessoas reduzindo consumo ou que simplesmente querem “bebida de adulto sem álcool”. Ainda assim, esse segmento não será a salvação financeira das independentes.

Quais players ficam de pé em 2026, e como

No campo da distribuição e sobrevivência, o tamanho da cervejaria determina tudo. As grandes independentes precisarão jogar o jogo do autosserviço e do supermercado com produtos de maior volume e margens ajustadas. As médias, o “meio do sanduíche”, seguem relevantes para food services, restaurantes e bares especializados. Por outro lado, as pequenas e micro sobrevivem bem quando abraçam a venda direta: taproom, bar próprio, comunidade fiel e presença digital coerente.

Para o modelo cigano, o futuro é binário: quem trata o negócio como hobby ou aparece só quando dá vontade tende a desaparecer; mas quem opera com consistência, como a Spartacus, continua relevante. Portanto, o ponto central é foco: nicho claro, identidade, regularidade e produto que carrega o nome da marca. Não apenas rótulos colecionáveis.

Cervejaria Dogma - Surra de Lúpulo

Nessa dinâmica, “beber local” continua sendo essencial. A Dogma viu o bar da Santa Cecília crescer quase 50% em um ano, e as franqui­as seguem puxando o faturamento da marca. A loja online funciona bem como complemento, mas não substitui a experiência de bar, especialmente após a pandemia. Assim, é ali que a marca se afirma, onde o consumidor prova, conversa, retorna. E isso só funciona quando a cervejaria não concorre com o próprio parceiro oferecendo preços menores no e-commerce.

Passando a régua, de olho no que vem aí

A provocação final é inevitável: o futuro das independentes não será construído com hype, mas com fundamento. Além disso, compreender o tamanho do próprio negócio, saber qual canal faz sentido, entender o consumidor que envelheceu, resgatar estilos clássicos e comunicar com clareza, sem arrogância, serão habilidades essenciais para sobreviver ao próximo ciclo.

2026 não será o ano da explosão, nem o da catástrofe. Será o ano da maturidade. Menos espuma, mais substância, mais essência. Menos ilusão, mais estratégia. E, acima de tudo, a chance de recuperar aquilo que nunca deveria ter sido perdido: o prazer de beber cerveja boa, diversa e honesta. 🍻

Continue ouvindo

Episódios relacionados

Ep. 316 julho 2, 2026 · com Fernanda Brito

“Quem fala com todo mundo não fala com ninguém”: como a Ruera construiu território de marca na cerveja artesanal

"Quem quer falar com todo mundo, fala em silêncio." Ludmyla Almeida conversa com Fernanda Brito, sócia da Ruera, sobre território de marca, construção de comunidade e os desafios de criar uma cervejaria independente com identidade forte em um mercado cada vez mais competitivo.

Veja post completo →
1:08:09
Ep. 315 junho 25, 2026

Malzbier: a cerveja que muita gente bebe, poucos assumem, e que representa 28% da produção brasileira

Muito além da cerveja doce, a Malzbier carrega uma trajetória centenária que mistura nutrição, propaganda, cultura cervejeira e tradição industrial no Brasil.

Veja post completo →
Ep. 314 junho 18, 2026

Envelhecimento, produtividade e parecer bem: a pressão que não para

Um debate sobre envelhecimento, menopausa, maternidade e a pressão constante por performance no trabalho e na vida.

Veja post completo →