Sobre o episódio
Ela chegou à final de um grande campeonato de café sem acreditar que seria campeã e saiu de lá com o título. O que fica quando competição, maternidade, redes sociais e o café de todo dia precisam caber na mesma rotina?
No 3º episódio desta temporada do Bloco do Catuaí, Mari Mesquita recebe Amanda Albuquerque, barista e campeã brasileira de Coffee in Good Spirits, para uma conversa sobre bastidores de campeonato e vida real.

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O café que começou na hospitalidade
Amanda trabalha com café há oito anos, passou por algumas das principais cafeterias de Curitiba e reúne milhões de seguidores nas redes. Na conversa, porém, o que mais chama atenção está fora dos títulos: o café simples de casa, a relação com os filhos e a construção coletiva por trás de uma conquista individual.
O café entrou em sua vida em 2018, depois de ela interromper a faculdade de Gastronomia ao ter o primeiro filho. A vaga veio por Vitor Hauber, hoje da Manana Cafés, que ela conhecia dos tempos de fã-clube da banda Restart. Ele anunciou no Instagram a saída de alguém do Rause, referência em Curitiba, e Amanda perguntou se havia vaga. Queria trabalhar na cozinha, mas a oportunidade era de atendente. Levou o currículo, começou no dia seguinte e ali conheceu o universo dos cafés especiais.

Ser uma boa barista, para ela, nunca foi só extrair um espresso perfeito. Técnica, estação limpa e máquina bem cuidada importam, mas hospitalidade também: atender bem é criar uma experiência que faça o cliente querer voltar, antes mesmo de o café assumir o protagonismo.
Do balcão para as competições de café
Amanda começou a competir cedo. Em 2019, treinava Latte Art com Tiago Rocha, o Tiaguinho, campeão brasileiro da categoria, e com Leo Pires, hoje na 4Beans: ela tinha o espaço do Rause, Tiaguinho conseguiu apoio com café e Leo, com leite.
Essa lógica coletiva dos treinamentos permanece até hoje. Amanda compara o grupo a um time de futebol: alguém faz o gol, mas é a equipe que vence. O título brasileiro de Coffee in Good Spirits está no núcleo do Royalty, onde ela treinou para a competição, há cinco anos: dois foram de Daniel Munari, dois de Leo Oliva e o quinto é dela.


A categoria chamou sua atenção no Mundial de 2022. Ela acompanhava Tiaguinho no campeonato de Latte Art quando assistiu à final do Coffee in Good Spirits e viu a apresentação da polonesa Agnieszka Rojewska. A combinação de técnica, coquetelaria e espetáculo plantou uma ideia que cultivou pelos quatro anos seguintes.
Quando decidiu competir, fez questão de criar os próprios coquetéis. Mesmo com profissionais de coquetelaria por perto, como o mixologista Leo Pires, não queria abrir espaço para a leitura de que outra pessoa havia feito o trabalho por ela. Estudou, desenvolveu as receitas e partiu da história que queria contar, escolhendo os cafés só depois. É o inverso do caminho comum, que começa por um café excepcional e monta a apresentação ao redor dele. O resultado foi o título brasileiro.
Ganhar foi importante. O processo, talvez ainda mais
Amanda conta que chegou à final sem acreditar que seria campeã. Queria apenas chegar até ali e apresentar o que havia preparado. Assim que conseguiu a vaga, parte da pressão desapareceu e, sem a obrigação interna de vencer, ela se divertiu fazendo o que mais gosta. Os cerca de 30 dias de preparação, define, foram de “pura diversão”.

Competição, porém, não é só palco e troféu. Mesmo com patrocínios, o apoio não cobriu nem metade dos gastos de Amanda com o campeonato. Ela faz questão de dizer que a escolha foi sua e de não se vitimizar, mas lembra que poucas empresas do café especial acreditam em competidores e campeonatos, e boa parte da preparação sai do bolso de quem compete.
Para mulheres, e especialmente para mães, há outras camadas. Mesmo com a flexibilidade de quem faz os próprios horários, Amanda passou a treinar fora de casa quase todos os dias e sentia culpa por deixar Bernardo, de 12 anos, sozinho. Além dele, é mãe de Bia, de três anos, toca a própria empresa, produz conteúdo e mantém projetos ligados ao café. Quando se fala em ampliar a presença feminina nas competições, dinheiro é só parte da equação. Tempo, cuidado e carga mental também entram na conta.
Milhões de seguidores e o direito de continuar sendo você
A internet transformou a carreira de Amanda. Há seis anos, ela percebeu que o marketing de influência poderia render mais do que a gastronomia, uma decisão financeira de quem já tinha um filho e queria ter outro. Hoje são 330 mil seguidores no Instagram e 4,5 milhões no TikTok, e a exposição cobra seu preço.
Sua comunicação sobre café mudou bastante desde 2020. No início, o discurso era agressivo, quase uma tentativa de dizer às pessoas que estavam tomando café “errado”. Com o tempo, ela passou a considerar também acesso, renda e realidade de consumo — nem todo mundo pode comprar café especial, ter equipamentos em casa ou moer os grãos na hora. Mas uma coisa não mudou: Amanda nunca divulgou café ruim e nunca deixou de ser ela mesma, inclusive nos posicionamentos pessoais, mesmo sabendo que eles podem custar seguidores, publicidade e alcance.
Isso não significa que o trabalho digital seja simples ou muito lucrativo. Quem vê os números imagina uma vida confortável, mas a renda oscila: há meses com publicidade e boa monetização e outros em que quase nada entra, além de impostos, custos de empresa e a instabilidade das plataformas. Amanda se considera “micro” nesse universo, apesar dos milhões de seguidores.
Às vezes, tudo o que você quer é um café gostoso

Uma das melhores sínteses da conversa aparece quando Mari pergunta como uma campeã brasileira prepara café em casa. A resposta é quase um manifesto contra a complicação desnecessária: Melitta.
Amanda conta que abandonou boa parte da pressão de transformar cada preparo doméstico em uma experiência extraordinária. Em geral, o que deseja é um café equilibrado e de baixa acidez, perfil que resume como “84 pontos, caramelo e doce de leite”.
Há técnica, ciência e inúmeras possibilidades de preparo no café, mas nem todas precisam estar em todas as xícaras. Essa percepção também mudou a maneira como ela conversa com baristas que ficam nervosos ao preparar algo para uma profissional conhecida. O café feito em casa nem sempre sai perfeito: às vezes é preparado com água da torneira, às vezes o método não funciona como deveria. E está tudo bem.
Existe uma ligação entre essa simplicidade e toda a trajetória contada no episódio. Amanda estudou técnica, competiu, ganhou um campeonato brasileiro e agora se prepara para novos desafios: antes do Mundial de Coffee in Good Spirits, previsto para Lisboa em 2027, pretende disputar o Campeonato Brasileiro de Barista, na Semana Internacional do Café (SIC), em novembro, categoria em que nunca competiu. Depois disso, começa a preparação para representar o Brasil no Mundial. A ideia da apresentação já existe, e Lisboa oferece um contexto bastante particular para a história que ela pretende contar.
Ainda há muito trabalho pela frente. Entre treinos, cafés, coquetéis, filhos, publicidade e algoritmos, Amanda segue com a agenda cheia, mas com a clara ideia de que dominar a técnica também pode significar saber quando não ser refém dela.
☕ Leia e ouça também o Episódio #6 – Barismo de alta performance, com Emerson Nascimento
Ouça o episódio completo
Este post é um resumo do que foi conversado no episódio. Para ouvir a conversa na íntegra, com os detalhes, exemplos e a troca em tempo real, acesse o Bloco do Catuaí no Spotify, YouTube ou no seu agregador de áudio favorito.
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