Sobre o episódio
A cafeicultura no Nordeste já foi muito maior do que se imagina: há cerca de 100 anos, só Areia, na Paraíba, tinha mais de 14 milhões de pés de café. O que aconteceu com essas lavouras, e o que está fazendo o café voltar?
Neste episódio do Bloco do Catuaí, Mari Mesquita recebe Jheyson Dantas, agrônomo formado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e mestrando em Ciência do Solo, para conversar sobre pesquisa, agricultura familiar e o resgate da cultura do café nordestino.

O BLOCO DO CATUAÍ É PATROCINADO POR:
☕ Apê – Assinatura para espresso, com box mensal de cafés selecionados incluso. É espresso de barista na bancada de casa.
🧢 Ernesto Cafés Especiais – Casa de cafés especiais, pães artesanais e cultura de Brasília.
🥛 Nude – A bebida de aveia que nasceu para ser transparente, do nome à pegada de carbono.
🐐 Cabra Lab – Licor de café feito com grãos especiais brasileiros.
Da agronomia à paixão pelo café
Natural de Currais Novos, no Rio Grande do Norte, Jheyson foi criado pela avó em Piracicaba e chegou a Areia, na Paraíba, para estudar agronomia. Durante a graduação, apaixonou-se pelos solos. Foi no projeto do professor Guilherme Podestá que encontrou o café.
Em 2023, ao lado de Jéssica e Tiago, fundou o Núcleo de Estudos em Cafeicultura, o NECAF da UFPB. Hoje, o grupo reúne mais de 20 estudantes, com encontros semanais e atividades que percorrem toda a cadeia, da produção de mudas ao preparo da bebida. Novos integrantes entram a cada semestre, pensando em quem continuará o trabalho quando os atuais deixarem a universidade.
O aprendizado acontece também no campo: os alunos plantam, manejam, colhem, secam, torram e provam. Assim, conseguem perceber na xícara a diferença entre um café bem cuidado e outro cujo processamento não recebeu a mesma atenção.

Uma história que não começou agora
Segundo Jheyson e o Anuário Estatístico do Café, Areia tinha mais de 14 milhões de pés de café há cerca de um século. A explicação local de que uma cochonilha teria acabado com as lavouras conta só parte dessa história.
A praga contribuiu, mas ele lembra também dos preços baixos, da falta de assistência técnica e dos incentivos públicos à troca do café pela cana-de-açúcar. Por isso o projeto iniciado por Podestá em 2016 fala em resgate: a cultura perdeu espaço, mas sobreviveu em plantas remanescentes e em regiões como Baturité, no Ceará, e Taquaritinga do Norte, em Pernambuco.
“A cafeicultura está sendo retomada no Nordeste, mas ela nunca saiu daqui”, resume Jheyson.

Pesquisa que precisa chegar ao produtor
O campo experimental da UFPB reúne mais de 50 cultivares em aproximadamente meio hectare. Ali, os estudantes avaliam produtividade, crescimento e qualidade da bebida, porque uma variedade que vai bem em outra região pode não se adaptar ao Brejo Paraibano. Nos ensaios citados por Jheyson, o Mundo Novo, por exemplo, não deu bons resultados.

A pesquisa de mestrado dele busca uma metodologia para produzir café com água salobra, já que o cafeeiro é sensível à salinidade. A ideia é encontrar soluções que os produtores consigam usar de verdade.
A mesma lógica orienta as oficinas e os cursos de extensão. Para alcançar pessoas com diferentes níveis de escolaridade, o núcleo usa linguagem acessível e demonstrações práticas, e defende o manejo consciente, com o uso de agroquímicos só quando necessário.
Pequenas lavouras, grandes possibilidades
Na entrevista, Jheyson fala de mais de 80 produtores na Paraíba e mais de 50 no Rio Grande do Norte, embora nem todos estejam colhendo. Para essas pequenas propriedades, o caminho é agregar valor pela qualidade e criar condições para as famílias permanecerem no campo.
Joseane Gomes, do Café Flor da Serra do Balde, em Alagoa Grande, é um exemplo: com 350 plantas, teve a primeira colheita avaliada em 87 pontos. Para Jheyson, o que conta também é o entusiasmo de quem vê os primeiros frutos e já planeja novos plantios.
Nos cafés do Brejo, ele encontra notas adocicadas, como de melaço de cana, chocolate e, em alguns lotes, frutas amarelas e caráter licoroso. Mapear o terroir exige tempo e pesquisa, ele ressalta.
O café que se constrói em rede e momentos
Com parceiros como Sebrae, São Braz e cafeterias, o NECAF ampliou sua atuação. Dessa rede saiu o primeiro Concurso de Qualidade dos Cafés do Nordeste, com 47 inscrições e mais de 60 amostras de cinco estados. A avaliação final é nesta quarta-feira (14/10), a degustação pública acontece na quinta (15/10) e a premiação, na sexta (16/10), em Natal.
Muitas amostras foram desclassificadas por defeitos ou por estarem fora do padrão de umidade, algo que ele não vê em regiões produtoras mais tradicionais. Para Jheyson, isso mostra que a capacitação precisa ser contínua: este é o primeiro concurso da região, e a maioria dos produtores ainda não está habituada a participar.
Para encontrar cafés paraibanos, Jheyson recomenda procurar o NECAF no Instagram, que encaminha os contatos para a compra direta. O grupo também planeja levar produtores e seus cafés à Semana Internacional do Café, em novembro.
Na pergunta sobre o café para tomar pelo resto da vida, Jheyson ficou com dois: o da Joseane Gomes e o da Tadeane Pires Matos, da Chapada Diamantina, que a Mari também coloca entre os melhores que já provou.
Na casa da avó Dalva, o café é tradicional — e ele gosta, porque a xícara vale também pelo momento e pelas pessoas e memórias ao redor.
E o pior café da vida dele? A resposta passa pelo campo experimental da UFPB, e o resto fica para o episódio!
☕ Leia e ouça também o Episódio #1 Temporada 1 – O Café do Futuro: Por trás da xícara, a ciência, com Verônica Belchior
Ouça o episódio completo
Este post é um resumo do que foi conversado no episódio. Para ouvir a conversa na íntegra, com os detalhes, exemplos e a troca em tempo real, acesse o Bloco do Catuaí no Spotify, YouTube ou no seu agregador de áudio favorito.
Gostou do conteúdo? Compartilhe com quem gosta de café.
