Surra de Lúpulo

Podcast Surra de Lúpulo, ep. 51, Cervejas selvagens, ácidas, extremas e originais, com Diego Simão da Cozalinda

Ep. 51 · abril 8, 2021 · com Diego Simão

Sobre o episódio

O convidado do episódio 51 do Surra de Lúpulo, nosso podcast de cerveja artesanal, é Diego Simões, cervejeiro e blender da cervejaria manezinha Cozalinda, vencedora de 20 medalhas nacionais e internacionais em estilos relacionados à cervejas ácidas complexas. E é justamente para falar sobre esse estilo de cerveja extremamente provocativo ao paladar.

Nascida do sonho de dois irmãos manezinhos, a Cozalinda é uma nano-cervejaria que iniciou sua trajetória produzindo ales e lagers, sempre pensando em temáticas locais: a missão da cervejaria é trabalhar o terroir (saiba mais sobre terroir escutando o episódio 39, com a sommelier Cilene Saorin) da ilha a cada rótulo, oferecendo sabores e combinações que evidenciem as possibilidades da microbiota local. “Independentemente do estilo que estivermos produzindo, cada rótulo nosso representa um resultado único, que só poderia ser criado aqui. Eu não controlo o clima, não controlo a terra, a cerveja mais simples que fazemos na Cozalinda demora no mínimo um ano para ficar pronta, assim podemos ter uma comparação temporal entre os barris. E se cada cerveja representa um recorte de tempo, é feita com leveduras e temperaturas locais, estamos sim produzindo uma cerveja que só poderia acontecer aqui em Florianópolis, um terroir nosso”.

Cervejas ácidas complexas

Diego explica que a ideia de produzir cervejas ácidas complexas não é copiar metodologias de produção das lambics, por exemplo. “Minha principal missão, e isso foi algo que aprendi na Bélgica mesmo, é: faça a sua cerveja como ela tem de ser a partir dos microorganismos locais. Às vezes as pessoas provam rótulos da Cozalinda e dizem, ‘sua cerveja não parece lambic‘ e eu respondo, exatamente, porque não era esse nosso objetivo. E, quando dizem ‘nossa, parece muito uma lambic‘, eu agradeço o elogio, mas não, ela não é. As cervejas ácidas complexas também sofrem muito em concursos nacionais de cerveja. Às vezes o resultado é acético demais para o paladar do juiz, que está pensando em um espectro de avaliação muito colado nos parâmetros belgas. Isso dificulta muito a incorporação do estilo a partir de cada local geográfico, que é justamente a nossa ideia de produção”.

Cervejas selvagens

“Eu cito o exemplo do mundo dos vinhos orgânicos. São vinhos selvagens, de fermentação espontânea. Estive em Bento Gonçalves para ver como eles trabalham, ver a questão dos barris, que nós usamos muito na Cozalinda. E acho que temos muito a aprender com a vinicultura: como vender, como se apresentar para certos mercados, como se relacionar com a gastronomia e, no nosso caso,  as metodologias de produção, porque as cervejas ácidas complexas no fundo têm mais a aprender com as vinícolas do que com as cervejarias. 

O  caminho traçado para chegar ao momento atual da Cozalinda foi mirar em processos únicos que traduzam da melhor forma o terroir local. Mas como traduzir isso para o mundo da cerveja? Diego explica que, de modo análogo à importância da uva para o vinho, os microorganismos que fazem a fermentação são o elemento que agrega as principais características das cervejas da Cozalinda. Para deixar este processo ser tão único, a cervejaria produz sem controle de temperatura e armazena em barris de madeira. “Assim que termina a fermentação, cabe ao cervejeiro o papel que nas vinícolas é dos enólogos: encontrar o melhor blend ano a ano. Ao fim do blend, o cervejeiro tem suas cervejas bases”.

A Cozalinda produz três bases diferentes: Praia do Meio (fermentação com microorganismos locais selvagens selecionados em laboratório), Pedras do Itaguaçu (os microorganismos da Praia do Meio somados a microorganismos selvagens belgas fazem a fermentação) e a Paulo Lopes (com a fermentação ocorrendo com microorganismos espontâneos coletado em um engenho de mandioca). 

Com as bases prontas, o cervejeiro cria diferentes receitas, acrescentando frutas, sementes, folhas e outros ingredientes que se somam a para contar histórias locais. As receitas da Cozalinda levam em consideração as histórias da ilha, sua cultura, ou seja, o “terroir cultural” também influencia nas criações. “E estamos sempre, sempre, pensando em produzir cervejas que possam ser tomadas em Floripa. No inverno e no verão, que harmonizem bem com a gastronomia local que é maravilhosamente influenciada pela abundância de frutos do mar.”

Continue ouvindo

Episódios relacionados

Ep. 318 julho 16, 2026 · com Yumi Shimada

Japas Cervejaria: como identidade, cultura e propósito transformaram uma cervejaria em uma marca reconhecida no mundo

Como a Japas Cervejaria transformou ancestralidade, design e propósito em uma das marcas mais reconhecidas da cerveja artesanal.

Veja post completo →
Ep. 317 julho 9, 2026 · com Débora Lehnen

Proa Cervejaria: como sobreviver driblando contratos de exclusividade há quase 10 anos

Débora Lehnen relembra a criação da Proa Cervejaria, os desafios de empreender na Bahia e a construção de uma marca que valoriza ingredientes, cultura e identidade locais.

Veja post completo →
Ep. 316 julho 2, 2026 · com Fernanda Brito

“Quem fala com todo mundo não fala com ninguém”: como a Ruera construiu território de marca na cerveja artesanal

"Quem quer falar com todo mundo, fala em silêncio." Ludmyla Almeida conversa com Fernanda Brito, sócia da Ruera, sobre território de marca, construção de comunidade e os desafios de criar uma cervejaria independente com identidade forte em um mercado cada vez mais competitivo.

Veja post completo →
1:08:09