Surra de Lúpulo

Recomeçar sem começar do zero: como Nadhine França reconstruiu sua carreira cervejeira na Europa

Ep. 330 · outubro 8, 2026 · com Nadhine França
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Sobre o episódio

Mudar de carreira já exige coragem. Recomeçar em outro continente, com outra língua e outro mercado de uma só vez, adiciona outras camadas ao processo. Foi esse o caminho de Nadhine França, que deixou o Brasil com uma trajetória consolidada no universo da cerveja artesanal e precisou reconstruir sua carreira cervejeira na Europa.



De volta ao Surra de Lúpulo, Nadhine contou a Ludmyla Almeida como transformou a experiência acumulada no Brasil em ferramentas para montar uma nova rede, circular por mercados europeus diferentes e atuar hoje com desenvolvimento de negócios, eventos, parcerias e conexões dentro da indústria cervejeira.

Nadhine França

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Recomeçar não significa jogar fora a bagagem

Antes da cerveja, Nadhine trabalhava com tecnologia da informação, num ambiente que ela descreve como estressante e tóxico. A cerveja entrou como hobby, com a confraria feminina de Recife: “O mosquitinho do amor com a cerveja artesanal me picou”. Vieram as degustações, o homebrew, a política das associações e a organização de eventos, até a migração completa para o setor.

Na mudança para a Europa, parte da história voltou mesmo à estaca zero. “O que foi do zero foi minha primeira vez morando fora, minha primeira vez na Europa. Eu só tinha visitado países da América Latina e não falava inglês quando me mudei”, conta. Ela também não tinha contatos nem referências do mercado europeu, mas levava consigo cerca de nove anos de cerveja artesanal, a formação em administração e a visão de processos da TI, e tudo isso seguiu útil. Em vez de abandonar carreiras anteriores, foi acumulando competências.



O que mais a surpreendeu foi o peso de ser brasileira. No Brasil, ela já adaptava a comunicação a públicos muito diferentes, de um garçom ao CEO de uma grande cervejaria, sem virar outra pessoa. “Essa malemolência brasileira foi uma das coisas que mais me ajudaram aqui, e que eu não esperava.”

Networking como estratégia profissional


A rede de contatos não nasceu na Europa. Quando começou a se profissionalizar, o mercado cervejeiro do Nordeste “não era visto, não era incluído nas coisas”, e nem havia juízes da região nos concursos. A resposta de Nadhine foi aparecer: “Eu estava em todos os festivais, em todos os congressos, não só para aprender como eles funcionavam, mas para ser vista“.

Na Europa, ela repetiu o método. Em cerca de um ano circulando por eventos, já era conhecida como alguém que “conhecia todo mundo”, percepção que mistura esforço real e a facilidade de conversar tanto com quem opera a cervejaria quanto com quem toma as decisões. Essa habilidade ganhou aplicação concreta na Central European Craft Beer Conference (CEBC). A região é um pouco esquecida pelos grandes eventos do continente, e Nadhine usou sua rede para mostrar a fornecedores o valor de investir nela. No ano em que organizou o evento, o volume de patrocínios dobrou. “Essa capacidade de transmitir o valor foi a minha maior ferramenta.”

Um continente, muitos mercados

Circular por vários países desmontou uma percepção comum: não existe um único mercado cervejeiro europeu. “Foi uma coisa que me surpreendeu bastante: a ideia, que eu não tinha antes, de pegar um trem e em duas horas atravessar um país e estar com outra cultura, outra língua. E aí, outro mercado cervejeiro também.” Países como Hungria, Romênia e Croácia compartilham alguns desafios com o Brasil. A Áustria, de tradição cervejeira mais próxima da alemã, é outro cenário. Para Nadhine, concursos e eventos viraram um jeito de entender cada mercado local, e não só de ampliar o networking.


Foi nesse circuito que ela viu uma das mudanças mais claras do setor: o avanço das bebidas sem álcool e funcionais, que já levam muitas cervejarias a produzir outros tipos de bebida. “Não é só uma trend, como algumas pessoas costumam falar no mercado de cerveja. É enorme, tanto no palco quanto no chão dos eventos.”

Mulheres no mercado: avanços ainda lentos

A conversa voltou às origens, quando a confraria feminina ajudou a formar uma rede de mulheres no mercado nordestino. Hoje, Nadhine participa de uma iniciativa europeia que conecta mulheres da indústria de bebidas, e vê nesses espaços algo que ainda faz falta. Para ela, a evolução existe, mas é lenta.


O exemplo mais forte vem da Polônia, onde, segundo o organizador de um dos maiores festivais do país, só três entre cerca de 300 cervejarias têm mulheres como donas ou tomadoras de decisão. “Se não tem mulheres no topo, não vai ter trabalhando. E a quantidade de cliente mulher também vai ser menor, porque não tem representatividade.”

Ser ponte virou profissão

Hoje, Nadhine resume seu trabalho de maneira simples: “Meu trabalho hoje é basicamente ser uma ponte“. Ela atua de forma independente, conectando pessoas, empresas e mercados. Os anos fora do Brasil também a fizeram valorizar a própria identidade. “Ter identidade própria, ter força nas suas raízes, importa muito.” E ela sabe que o caminho que escolheu não é o mais fácil, mas, como ela própria diz, “eu gosto de problema”.

O aprendizado talvez sintetize toda a conversa — mudar de país exigiu reconstrução, mas não apagamento. Recomeçar uma carreira pode significar voltar a construir reputação e contatos, mas não necessariamente voltar ao zero. A bagagem anterior continua viajando junto e, muitas vezes, é ela que permite encontrar um novo lugar.



Ouça o episódio completo
Esse post é só um recorte da conversa. Pra pegar todos os detalhes, os causos e a química entre os convidados do Surra de Lúpulo, o episódio completo está no Spotify, no YouTube ou no seu agregador de áudio favorito.

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