Surra de Lúpulo

Women in Beer: como uma rede de mulheres está mudando a cena cervejeira britânica

Ep. 279 · setembro 18, 2025 · com Amélie Tassin
Ouça também em: Spotify ↗ YouTube ↗

Sobre o episódio

Introdução: por que esse papo importa

Nem todo episódio de podcast nasce para virar texto, mas este pede. No Surra de Lúpulo, Ludmyla Almeida e Henrique Boaventura comentam a entrevista com Amélie Tassin, fundadora do Women in Beer no Reino Unido, e assim abrem uma janela para entendermos como uma comunidade feminina tem enfrentado sexismo, ampliado pertencimento e criado caminhos concretos de formação, visibilidade e influência na indústria da cerveja no Reino Unido – com lições diretas para o Brasil.

CONHEÇA E TAMBÉM APOIE QUEM APOIA O SURRA:

🍻 Cervejaria Stannis – Essa grande parceira oferece desconto para os nossos ouvintes! Use o cupom SDL12 no site deles e ganhe 12% OFF. As melhores cervejas você encontra aqui.

Quem são e de onde vieram

Criado há 7 anos, o Women in Beer reúne mulheres que gostam de cerveja e profissionais do setor. O primeiro encontro, em 2018, juntou quatro pessoas; hoje, já são cerca de 700 membros no grupo de Facebook (além de inscritas por e-mail), inclusive com gente de fora do Reino Unido, que organiza encontros quando está de passagem por cidades como Edimburgo. Nasceu de algo simples – fazer amigas e ir ao bar juntas – e cresceu para rede de apoio a quem quer entrar, permanecer e progredir na indústria.

Women in Beer UK

Rede de apoio: do primeiro brinde à carreira

Ir ao bar com outras mulheres não é detalhe. Em muitos contextos (inclusive no Brasil), a presença feminina em mesas de bar ainda é minorizada. Logo, grupos como o Women in Beer dão respaldo, reduzem a intimidação em ambientes historicamente masculinos e criam pertencimento. E, apesar de um conjunto que pressupõe o auxílio presencial, o contato digital em nada atrapalha, potencializa: facilita o acesso, capilariza a comunidade e sustenta trocas que não dependem apenas do encontro físico.

O retrato da desigualdade que ainda persiste

Segundo relatórios citados por Amélie da Society of Independent Brewers and Associates (SIBA, associação britânica dos independentes; no debate, comenta-se a adoção do termo “indie” para diferenciar do “craft”, que foi apropriado por grandes grupos), apenas 8% dos empregos e 23% dos cargos de gestão são ocupados por mulheres. Há sexismo e assédio que ainda afastam e desestimulam carreiras. Avanços existem, dos códigos de conduta em festivais às políticas internas de diversidade e inclusão, mas o caminho é longo e exige esforço contínuo, escuta e implementação diligente pelas organizações.

Buy local, buy indie - women in beer

Para Amélie, a indústria tem um problema de imagem: a cerveja segue comunicada “como coisa de homem”. E isso exclui metade da população – inclusive quem muitas vezes decide a compra no supermercado. A solução passa por mostrar diversidade nas campanhas, sites e redes: mulheres, pessoas negras, asiáticas, pessoas com deficiência e neurodivergentes, faixas etárias variadas. Pois representar é convidar!

Mentoria que forma – e paga

Lançado em 2023, o programa de mentoria do Women in Beer reuniu 24 mulheres de toda a cadeia: produção, vendas, marketing, escrita, podcasts, embalagens, química e controle de qualidade. Ele é conduzido em três sessões com mentora dedicada, oportunidades de aprendizado e networking, viagem de campo para fortalecer laços. E aqui entra um ponto crucial: ele tem os custos pagos para participantes. Assim, a trilha inclui formação como o WSET Nível 1 em Bebidas, oferecendo base técnica. E defende, nessa linha, um princípio que o Surra endossa: o de que “ninguém deveria trabalhar de graça”. De modo que as mentoras são remuneradas!

Women in Beer UK

Influência na indústria: da consultoria às boas práticas

O Women in Beer ainda é convidado por entidades setoriais para apresentar o que faz e compartilhar boas práticas de inclusão. Um aconselhamento que vai além de questões de gênero e abrange pessoas com deficiência e neurodivergência. Mas há uma condição para funcionar: organizações precisam ouvir e implementar. É, afinal, uma via de mão dupla entre quem aconselha e quem se compromete com a mudança.

Como viabilizam tudo isso

Além do esforço das fundadoras e apoiadoras desde o início, o Women in Beer atraiu empresas de insumos como Simpsons, Barth-Haas e Yakima Chief, que apoiam a organização de um festival, os trabalhos de mentoria e a distribuição de prêmios por parte da organização. Há ainda financiamento recorrente via plataformas do tipo Patreon e apoio de entidades comerciais.

Não dá pra deixar de sublinhar aqui um lembrete poderoso do episódio: mulheres em cargos de decisão dentro de grandes empresas puxam a fila e ajudam a tirar projetos do papel!

The Awards: visibilidade que vira futuro

O Women in Beer Awards chega com 10 categorias que cobrem toda a indústria (produção, rede de apoio, comunicação, hospitalidade e mais). A meta é dar palco a mulheres que moldam o setor, combater a síndrome da impostora e encorajar candidaturas a prêmios tradicionais. Premiações específicas criam awareness, geram notícia e circulação e podem abrir portas – inclusive inspirando categorias em festivais maiores.

Amélie Tassin

Brasil no espelho: o que podemos fazer já 🇧🇷

O papo do Surra reconhece avanços no Brasil (códigos de conduta, eventos liderados por mulheres, premiações próprias como o Lúpulo de Ouro), mas também a falta de uma estrutura organizacional do porte do Women in Beer. Assim, caminhos práticos possíveis surgem do episódio:

  • Comunicação inclusiva que convide quem ainda não se vê no bar nem na propaganda.
  • Mentorias com foco técnico e remuneração das mentoras.
  • Coalizão de lideranças femininas para patrocínios e bicos de alavanca.
  • Prêmios e vitrines que institucionalizem a visibilidade.
  • Alcance digital para capilarizar encontros e oportunidades.

Conclusão – diversidade não é ornamento, é estratégia

O Women in Beer mostra que pertencimento começa no balcão, mas se consolida com formação, rede, financiamento e influência. Há dados duros sobre desigualdade, mas também mecanismos concretos para virar o jogo: marketing que inclui, mentoria que paga e conecta, prêmios que iluminam trajetórias e organizações que escutam e implementam.

Se queremos um mercado vivo, diverso e sustentável, a conta é simples: mais vozes, mais portas de entrada, mais palco, mais segurança. O convite final da Amélie deixa o gancho perfeito: abrir um capítulo do Women in Beer no Brasil seria um passo natural – e urgente. Quem vem junto? 🍻

Continue ouvindo

Episódios relacionados

Ep. 317 julho 9, 2026 · com Débora Lehnen

Proa Cervejaria: como sobreviver driblando contratos de exclusividade há quase 10 anos

Débora Lehnen relembra a criação da Proa Cervejaria, os desafios de empreender na Bahia e a construção de uma marca que valoriza ingredientes, cultura e identidade locais.

Veja post completo →
Ep. 316 julho 2, 2026 · com Fernanda Brito

“Quem fala com todo mundo não fala com ninguém”: como a Ruera construiu território de marca na cerveja artesanal

"Quem quer falar com todo mundo, fala em silêncio." Ludmyla Almeida conversa com Fernanda Brito, sócia da Ruera, sobre território de marca, construção de comunidade e os desafios de criar uma cervejaria independente com identidade forte em um mercado cada vez mais competitivo.

Veja post completo →
1:08:09
Ep. 315 junho 25, 2026

Malzbier: a cerveja que muita gente bebe, poucos assumem, e que representa 28% da produção brasileira

Muito além da cerveja doce, a Malzbier carrega uma trajetória centenária que mistura nutrição, propaganda, cultura cervejeira e tradição industrial no Brasil.

Veja post completo →