Brassagem Forte

A Hora Ácida: Henrique quer fazer uma Mixed Fermentation Sour Beer

Ep. 337 · agosto 13, 2026 · com Diego Simão Rzatki
Ouça também em: Spotify ↗ YouTube ↗

Sobre o episódio

Dá pra planejar uma cerveja de fermentação mista sem passar um ano esperando resultado. Neste episódio da Hora Ácida, Henrique Boaventura leva um problema real pro programa: depois de ouvir a Ingrid Matos falar sobre Mixed Fermentation Sour Beer lá no Ep.292, ele quer fazer uma, mas sem o sofrimento de um projeto de cerveja selvagem tradicional.

Para isso, Diego Simão Rzatki, habitué do Hora Ácida, entra na conversa como consultor de azedume e monta, passo a passo, uma receita pensada pra ser rápida, refrescante e de corpo baixo, usando como referência a Praia do Meio, da Cozalinda. Ao longo do episódio, a dupla discute grist, mostura, lúpulo, água e microrganismos, mostrando como cada decisão influencia o resultado final quando o objetivo é criar uma cerveja ácida, complexa, sem imitar uma Lambic belga, e ao mesmo tempo acessível para quem quer começar a explorar o universo das Mixed Fermentation Sour Beers.

O Brassagem Forte conta com a parceria da
Hops Company, Levteck, EZbrew e Pint Network

Mixed Fermentation Sour Beer não é a mesma coisa que cerveja selvagem

Antes de falar de receita, Henrique e Diego dedicam parte da conversa a esclarecer uma dúvida comum: Mixed Fermentation Sour Beer não é sinônimo de cerveja selvagem.

Numa cerveja de fermentação mista, o cervejeiro trabalha com microrganismos selecionados e conhecidos, normalmente isolados em laboratório ou mantidos pela própria cervejaria. Já nas chamadas wild beers, parte da fermentação depende de microrganismos presentes no ambiente, o que torna o resultado menos previsível.

Wild Beers

Essa diferença muda completamente a forma de planejar a cerveja. Em uma Mixed Fermentation Sour Beer, é possível escolher quais organismos participarão da fermentação e qual papel cada um deles terá no perfil final da bebida.

Por convenção, e não por exigência do BJCP, o episódio defende que uma Mixed Fermentation Sour Beer deveria contemplar três grupos de microrganismos trabalhando em conjunto: uma levedura do gênero Saccharomyces, uma bactéria responsável pela acidificação (láctica, geralmente Pediococcus) e uma Brettanomyces. Sem essa divisão, fica fácil confundir o estilo com categorias próximas, como Wild ou com Brett Beers, que exigem leituras diferentes.

O grist e a mostura pensados pra atenuação total

Depois de definir o tipo de fermentação, a dupla parte para a construção da receita. A escolha foi uma Old Traditional Saison, estilo que combina bem com Brettanomyces e pode atingir maturidade em poucos meses, muito mais rápido do que projetos tradicionais de azedumes.

O grist proposto utiliza principalmente malte pilsen, complementado por trigo maltado e uma pequena parcela de trigo laminado. Mais do que contribuir para o corpo da cerveja, o trigo ajuda a fornecer compostos precursores fenólicos, que serão transformados pela Brettanomyces ao longo da maturação, acrescentando complexidade ao perfil sensorial.

A mostura também foi planejada com esse objetivo. Antes da etapa principal de sacarificação, a receita inclui descansos em temperaturas mais baixas, justamente para produzir precursores do 4-vinil guaiacol, o composto que dá aquela nota rústica de feno e terra típica da Brettanomyces. O resultado buscado é uma cerveja seca, altamente atenuada e com espaço para que os microrganismos expressem seu caráter.

Estilo: Old Traditional Saison

Grist: • 70% Pilsen
• 25% Trigo Maltado
• 5% Trigo Laminado

Mostura: 42°C (10 min) → 52°C (10 min) → 64°C (40 min) → 68°C (20 min) → Mashout

Lúpulo: Hallertau Tradition
Amargor: 25 IBU
Fervura: 90 minutos

Água: Razão Cloreto/Sulfato próxima de 2:1
Microrganismos: Saccharomyces + bactéria láctica + Brettanomyces

FG esperada: ~1.000
Tempo de maturação: aprox. 4 meses
Envase: garrafas resistentes fechadas com tampinha

Lúpulo europeu, fervura longa e água que pode ganhar corpo

Para o amargor, a dupla descarta o Magnum em favor de um Hallertau Tradition (em torno de 5,5% a 6% de alfa-ácido), porque um lúpulo com menos massa vegetal pode contribuir menos em sabor. O IBU alvo fica em 25: acima de 20 pra não ficar sem graça, mas sem passar de 30, porque um corpo baixo deixa qualquer excesso de amargor evidente. A fervura sobe para 90 minutos, margem de segurança contra defeitos numa cerveja que já vai passar por uma fermentação longa e complexa.

Um ponto que foge do óbvio é: como essa não é uma cerveja de terroir, dá pra ajustar a água brasileira, naturalmente mole, para evitar que a atenuação total deixe a cerveja sem sensação de corpo. A sugestão é mirar em algo entre metade de um perfil Burton e a água local, com uma razão cloreto/sulfato próxima de 2:1.

Fermentação sem controle e envase com propósito

Sem geladeira, sem controle de temperatura: a fermentação começa perto de 20°C e segue livre. A dica prática mais importante fica na propagação: propagar a Saccharomyces junto com a Brettanomyces antes de inocular reduz o tempo de exposição ao oxigênio e o risco de contaminação por acetobactérias, o principal risco real desse tipo de cerveja. No envase, depois de estabilizar perto de FG 1.000, a recomendação é usar garrafas mais resistentes, como as de champanhe, e fechar com tampinha, não rolha, porque o fechamento com tampinha mantém a cerveja mais fresca e menos complexa, exatamente o objetivo aqui.

O que ficou de aprendizado

  • Mixed Fermentation Sour Beer usa microrganismos selecionados, isolados em laboratório ou na cervejaria, o que dá muito mais controle do que uma cerveja selvagem;
  • Uma Old Traditional Saison com Brett e bactéria pode ficar pronta em meses, não em anos, e é um bom ponto de entrada pra quem quer sofrer menos na produção de cervejas do tipo;
  • Propagar Saccharomyces e Brettanomyces juntas antes de inocular reduz a exposição ao oxigênio e ao risco de contaminação por acetobactérias;
  • Corpo muito baixo pede atenção redobrada no IBU: acima de 20 pra ter estrutura, mas sem passar de 30 pra não ficar agressivo;
  • Usar tampinha ao invés de rolha mantém a cerveja mais fresca e menos complexa ao longo do tempo.

Leia e ouça também o Episódio #328 – A Hora Ácida: Rolhas


Ouça o episódio completo

Este post é um resumo do que foi discutido no episódio. Para ouvir a conversa na íntegra, com os detalhes, exemplos e a troca em tempo real, acesse o Brassagem Forte no Spotify, YouTube ou no seu agregador de áudio favorito.

Gostou do conteúdo? Compartilhe com quem está aprendendo a produzir cerveja.

Continue ouvindo

Episódios relacionados

Ep. 336 agosto 10, 2026 · com Wagner Falci

Double Mash

Wagner Falci explica como a técnica de Double Mash permite produzir cervejas de altíssima densidade sem aumentar o tamanho do equipamento.

Veja post completo →
Ep. 335 agosto 3, 2026 · com Maycon Ribeiro

Brassando com Estilo: Introdução ao Guia de Estilos de Hidromel

Antes de julgar ou inscrever um hidromel em concurso, é preciso entender três declarações obrigatórias. Maycon Ribeiro explica os conceitos fundamentais do Guia BJCP de Hidromel: dulçor, carbonatação e força alcoólica.

Veja post completo →
Ep. 334 julho 27, 2026 · com Gabriela Müller

Leveduras Geneticamente Modificadas (GMO)

Gabriela Müller explica o que diferencia uma levedura geneticamente modificada (GMO) das técnicas tradicionais de seleção e porquê a burocracia ainda impede sua aplicação na cerveja brasileira.

Veja post completo →