Surra de Lúpulo

Cervejaria Colombina: profissionalização, propósito e expansão no coração do Brasil

Ep. 292 · janeiro 8, 2026
Ouça também em: Spotify ↗ YouTube ↗

Sobre o episódio

Estamos de volta, meu povo! E pra começar 2026, a série que já está entre uma das mais queridinhas do público do Surra de LúpuloCase Cervejeiro. Desta vez, recebemos Patrícia Mercês, CEO da Cerveja Colombina, pra dividir com a gente a trajetória, os desafios e as superações desse empreendimento que pulsa o Cerrado no coração do Brasil.

MAS ANTES, CONHEÇA E APOIE QUEM APOIA O SURRA:

🍻Cervejaria Dogma – Ela, que tem uma gama de rótulos que vão desde os estilos mais simples até cervas mais elaboradas, agora também é nossa parceira! Use o cupom SDL7 e ganhe 7% em todas as cervejas no site.

🌿Lúpulos 1000alt – Lúpulos premiados para garantir a melhor qualidade da sua cerveja. Ouvintes do Surra têm 10% com o cupom SURRADELUPULO10.

🧪Pinnacle Leveduras – Leveduras especiais e selecionadas para atender as necessidades da sua cervejaria

Do boteco familiar à indústria cervejeira goiana

A história da Cervejaria Colombina começa muito antes de a marca existir. Em Goiânia, o casal Mercês, os pais de Patrícia, já respirava o universo do bar e da boa mesa. Botequeiros raiz, administravam um restaurante que se tornaria ponto de encontro e palco para um sonho: produzir o próprio chope.

Nos anos 2000, em meio à fusão entre Brahma e Antarctica que daria origem à Ambev, o pai de Patrícia percebeu que as margens dos bares estavam encolhendo. “Se eu vendo tanta Antártica, posso produzir a minha própria cerveja”, pensou. Nascia então o Chope Mercês, vendido a 50 centavos o copo. Preço popular que fez o negócio explodir em Goiânia, alcançando impressionantes 30 mil litros por mês, volume que muitas microcervejarias de hoje ainda sonham em produzir.

A operação era simples e direta: fábrica nos fundos e bar na frente. Tudo devidamente registrado no MAPA, mostrando que a seriedade já fazia parte do DNA da família. Esse embrião seria o alicerce da Colombina.

Cerveja Colombina

O retorno de Patrícia e o nascimento da Colombina

Formada em Engenharia de Alimentos, Patrícia Mercês trabalhou no Rio de Janeiro com gestão de qualidade, mas o desejo de empreender falou mais alto. Em 2013, vendo a mãe tocando sozinha a antiga estrutura de chope, decidiu voltar para Goiânia e transformar o negócio em algo maior.

Inspirada pelo ano que passou estudando na Bélgica – berço das cervejas especiais -, Patrícia trouxe um plano ousado: criar uma marca de verdade, com propósito, branding e identidade própria. Assim nasceu o Projeto Colombina, que ganharia corpo em 2014.

Foram lançados três rótulos iniciais: uma Helles, uma IPA e uma Weissbier. A proposta então era clara: traduzir o universo das cervejas especiais para o paladar local, priorizando a bebabilidade e educando o consumidor goiano, ainda distante da cultura craft.

Na época, ser microcervejaria era sinônimo de improviso. “As marcas eram desenhadas no Word, pelo primo”, lembra Patrícia. A Colombina, ao contrário, nasceu com uma estratégia de posicionamento profissional, marketing estruturado e foco comercial. Assim, em Goiânia, tomar chope artesanal deixaria de ser vergonha para virar orgulho.

Colombina

Crescimento, crises e a arte da adaptação

A trajetória da Colombina coincidiu com os altos e baixos do mercado brasileiro. A primeira grande prova veio logo no lançamento, durante a crise econômica de 2014. Patrícia buscava financiamento no BNDES para a compra de uma linha de envase automatizada, mas o banco congelou os repasses no meio do processo.

“Eu já tinha fornecedor, máquina pronta e nenhuma linha de crédito”, recorda. Foi a imprensa local que, sem querer, ajudou a destravar o impasse. O jornal O Popular estampou na capa: “O jeito goiano de fazer cerveja”. No dia seguinte, o banco ligou avisando que o recurso havia sido liberado.

A segunda grande virada veio com a pandemia de COVID-19. Antes dela, a Colombina vivia um ciclo virtuoso, com presença crescente em redes de supermercado e investimento em novos equipamentos, incluindo um pasteurizador de túnel para profissionalizar a linha de envase. Mas, com bares fechados e insumos disparando de preço, a cervejaria viu seu faturamento despencar para 20% do normal.

A CEO não disfarça: “Foi quase o fim. Mas me fez voltar ao centro, reorganizar cultura, propósito e processos internos. A pandemia me ensinou o que é essencial.

Paixão é importante, mas negócio vem primeiro

Um dos pontos mais marcantes da conversa de Patrícia com Ludmyla e Henrique foi sua visão sobre a profissionalização do setor.

Para ela, muitas microcervejarias nascem do entusiasmo do cervejeiro caseiro, do sujeito apaixonado pelo líquido, mas pouco preparado para a complexidade da indústria. “Nasce da paixão de fazer cerveja, mas não da paixão de fazer negócio”, afirma.

Patrícia enxerga a gestão da Colombina com os pés no chão: é preciso ter comercial ativo, marketing estruturado, responsabilidade técnica e alimentar. “Cerveja é alimento. A gente sabe o que uma irresponsabilidade produtiva pode causar”, disse, relembrando crises que marcaram o mercado.

Ela reforça que não há problema em ter paixão, desde que equilibrada com organização e propósito. “Paixão é fé. Mas sem gestão, ela não sustenta o negócio”.

Hoje, a Colombina possui 14 rótulos divididos entre linhas de giro, produtos regionais e a linha Coralina, mais complexa e premiada. Mas o foco é claro: produzir cervejas vendáveis, reais e consistentes, não produtos de laboratório voltados só para concursos.

Cervejas

Da gôndola ao estádio: a estratégia comercial da Colombina

Um dos diferenciais da Colombina é sua força de distribuição e presença no varejo. Enquanto muitas microcervejarias se restringem ao circuito de bares e empórios, Patrícia apostou cedo no supermercado como principal vitrine de marca.

“Todo mundo diz que a Ambev compra 70% da gôndola e a Heineken 30%. Beleza. Mas sobrou espaço, e é ali que a gente entra”, explica. Essa mentalidade agressiva garantiu visibilidade e reconhecimento: há seis anos consecutivos, a Colombina é a cerveja artesanal mais lembrada de Goiás.

O trabalho é feito no chão de loja, com visitas constantes, degustações e acompanhamento de PDV. Além disso, a marca ousou no marketing: fechou parceria com o Goiás Esporte Clube, tornando-se a cerveja oficial do time.

Dentro do estádio, só o chope Colombina é servido, inclusive na versão verde, feita com clorofila, em homenagem às cores do clube. A ação rendeu exposição e engajamento regional, unindo paixão futebolística e identidade local! ⚽

Patrícia resume com humor: “O não eu já tenho. Eu vou pra humilhação com certeza. Mas se não pedir, não acontece”.

Chope Colombina - Goiás

Consumidor goiano e a missão de educar o paladar

O público de cerveja especial em Goiás ainda é pequeno, mas vem crescendo. E a Colombina tem papel direto nesse movimento. A marca aposta em eventos gastronômicos, degustações em supermercados e ações de harmonização para mostrar que cerveja vai bem com salgado e com doce também.

Segundo Patrícia, o trabalho é lento e exige paciência. “Tem que botar o povo pra provar. Às vezes o goiano nunca comeu uma cagaita. A gente precisa explicar, mostrar, contextualizar”.

Ela destaca que grandes marcas como Patagônia e Lagunitas ajudaram a abrir caminho ao tornarem as cervejas especiais mais acessíveis. “Isso nunca me atrapalhou. Pelo contrário, educou o consumidor”, afirma.

Mesmo quando um concorrente entrou agressivo em Goiás com a cantora Marília Mendonça como garota-propaganda, o resultado foi positivo: “Minha venda triplicou. Eles colocaram outdoor na cidade, e todo mundo começou a olhar pra cerveja artesanal. O mercado cresceu junto”.

Cerveja com sotaque do Cerrado

Se há algo que diferencia a Colombina, é o orgulho de ser goiana até o último gole! Desde o início, Patrícia constrói um portfólio conectado ao território, valorizando ingredientes locais e o bioma do Cerrado.

A Session IPA da casa leva lúpulo cultivado no Cerrado, da variedade Comet, e fécula de mandioca proveniente de uma cooperativa familiar com 50 famílias a apenas 40 km da fábrica. “Isso é propósito. Isso é economia local girando com a gente”.

Outros rótulos exploram frutas e castanhas regionais como cagaita, jabuticaba, baunilha do Cerrado, baru e siriguela, transformando a biodiversidade goiana em identidade líquida.

E esse olhar para o local não é tendência recente. “A gente nasceu assim. Não é modinha. É DNA!”.

Inspirada pelo estilo belga Cantillon, Patrícia acredita no conceito de quilômetro zero: valorizar o que está perto, reduzir distâncias e criar produtos autênticos. Não por acaso, a Colombina é reconhecida nacionalmente pela originalidade e coerência entre discurso e prática.

Patrícia Mercês - Colombina

Crescer sem perder a essência

Com uma capacidade produtiva de 90 mil litros por mês, a Colombina se consolidou como uma das maiores microcervejarias do Centro-Oeste. Mas Patrícia mantém a sobriedade: “Tem muita gente maior. A gente é grande como marca, e isso é o que nos orgulha”.

Ela refuta a ideia de que o crescimento tira o caráter artesanal. “Existe uma vergonha em crescer. Como se craft tivesse que ser pequeno e pobre. Mas crescer é profissionalizar. E dá pra fazer isso mantendo a essência”.

Questionada sobre a tendência de cervejas premium em garrafas verdes, Patrícia foi pragmática: o movimento faz sentido para quem tem muito dinheiro em marketing. “Se for pra competir com Heineken e Stella, é preciso tempo e verba. E eu prefiro investir na diferenciação.

Para ela, o futuro está em consolidar o que já existe antes de expandir. “2025 foi o primeiro ano que eu não lancei nenhum produto. Tô melhorando os que eu tenho. Meu foco agora é consolidar”.

Fé, propósito e consolidação

A trajetória da Cervejaria Colombina reflete a maturidade do mercado craft brasileiro. Nascida da paixão de uma família goiana, moldada por crises e guiada pela fé e pela profissionalização, a marca tornou-se um símbolo de persistência e identidade regional.

Patrícia Mercês lidera com visão de negócio, mas sem abrir mão do coração. Sua história prova que é possível crescer mantendo autenticidade, profissionalizar sem perder alma e usar o terroir como diferencial competitivo.

“Tem que acreditar”, ela resume. “A panela é velha, mas é premiada”.

E é com esse espírito, isto é, o da crença no trabalho, na cultura e na cerveja feita com propósito, que a Colombina entra em 2026 consolidada como um dos grandes cases da cerveja artesanal brasileira. 🍻

Continue ouvindo

Episódios relacionados

Ep. 318 julho 16, 2026 · com Yumi Shimada

Japas Cervejaria: como identidade, cultura e propósito transformaram uma cervejaria em uma marca reconhecida no mundo

Como a Japas Cervejaria transformou ancestralidade, design e propósito em uma das marcas mais reconhecidas da cerveja artesanal.

Veja post completo →
Ep. 317 julho 9, 2026 · com Débora Lehnen

Proa Cervejaria: como sobreviver driblando contratos de exclusividade há quase 10 anos

Débora Lehnen relembra a criação da Proa Cervejaria, os desafios de empreender na Bahia e a construção de uma marca que valoriza ingredientes, cultura e identidade locais.

Veja post completo →
Ep. 316 julho 2, 2026 · com Fernanda Brito

“Quem fala com todo mundo não fala com ninguém”: como a Ruera construiu território de marca na cerveja artesanal

"Quem quer falar com todo mundo, fala em silêncio." Ludmyla Almeida conversa com Fernanda Brito, sócia da Ruera, sobre território de marca, construção de comunidade e os desafios de criar uma cervejaria independente com identidade forte em um mercado cada vez mais competitivo.

Veja post completo →
1:08:09