Surra de Lúpulo

Proa Cervejaria: como sobreviver driblando contratos de exclusividade há quase 10 anos

Ep. 317 · julho 9, 2026 · com Débora Lehnen
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Sobre o episódio

O mercado de cerveja artesanal no Brasil não chega a 1% do consumo nacional. Ainda assim, a Proa Cervejaria sobrevive há quase 10 anos competindo com gigantes que travam contratos de exclusividade em praticamente todos os bares da Bahia.

Neste episódio do Surra de Lúpulo, Ludmyla Almeida conversa com Débora Lehnen, fundadora, mestre cervejeira e responsável técnica da Proa, uma das principais referências da cerveja artesanal no Nordeste.

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Da química à cerveja: uma mudança de rota que virou missão

A história da Proa Cervejaria começa longe da Bahia. Antes de se tornar uma das referências da cerveja artesanal nordestina, a gaúcha Débora Lehnen construiu uma carreira na indústria química, passando por áreas como laticínios, petroquímica e tratamento de água. No entanto, foi durante esse percurso e através de experiências acadêmicas internacionais que a fermentação despertou sua curiosidade.

O contato com cervejas artesanais em viagens pela Austrália, Nova Zelândia e, principalmente, pela Califórnia, ampliou seu repertório. Enquanto cursava parte do mestrado nos Estados Unidos, Débora mergulhou em uma cultura cervejeira vibrante e voltou ao Brasil com a certeza de que queria transformar aquele interesse em profissão.

Em 2014, ela se mudou para Salvador. Na época, praticamente não existiam cervejarias artesanais locais e, por isso, começou a produzir cerveja em casa para consumo próprio. Aos poucos, porém, a atividade deixou de ser um hobby e passou a parecer uma oportunidade real de negócio.

Depois de se planejar financeiramente, cursou a formação de Mestre Cervejeira, em Blumenau, realizou estágios em diversas cervejarias e retornou à Bahia com um plano estruturado para fundar a Proa.

Não só “feita na Bahia”: uma cervejaria verdadeiramente baiana

Ao longo da conversa, Débora explica que nunca quis apenas produzir cerveja na Bahia. Desde o início, a proposta da Proa era construir uma cervejaria conectada ao território em que estava inserida. 

A adaptação ao estado, porém, não foi simples. Segundo ela, a Bahia foi o lugar mais difícil em que já viveu. Paradoxalmente, foi justamente desse desafio que surgiu a oportunidade de estabelecer uma relação mais profunda com a cultura local. Frutas tropicais, ingredientes regionais, gastronomia e sabores desconhecidos para quem cresceu no Sul passaram a servir de inspiração para novas receitas. 

Dessa aproximação nasceu a identidade da Proa. Ingredientes como caju, pinha e outras frutas regionais foram incorporados ao repertório da cervejaria, enquanto o conceito do bar de fábrica recebeu influência das experiências que Débora viveu na Califórnia. O resultado é uma marca que combina origens gaúchas, referências internacionais e, acima de tudo, a riqueza cultural da Bahia. 

Os desafios de empreender contra a maré

Se abrir uma cervejaria já é um desafio, fazê-lo em um mercado sem tradição consolidada de cerveja artesanal torna a tarefa ainda mais complexa. 

Os obstáculos surgiram antes mesmo da inauguração. O plano original era abrir um brewpub em Salvador, mas a legislação municipal dificultava a instalação de cervejarias na cidade. Após sucessivas negativas para diferentes endereços, Débora decidiu transferir o projeto para Lauro de Freitas.

A mudança de localização, porém, não encerrou os problemas. A Proa enfrentou entraves burocráticos, interpretações divergentes da regulamentação e limitações de infraestrutura. Até hoje, a região carece de saneamento adequado, o que obriga a cervejaria a contratar caminhões para a coleta de esgoto semanalmente. 

Apesar das dificuldades, a presença da cervejaria acabou transformando o entorno. Uma rua antes vista como deserta e insegura passou a receber visitantes, criar vínculos e atrair movimento constante. Segundo Débora, muitas amizades nasceram dentro da Proa, e o espaço se consolidou como um ponto de encontro para a comunidade local

Educar consumidores antes de vender cerveja

Desenvolver o mercado consumidor foi outro desafio fundamental para a Proa. Débora percebeu rapidamente que não fazia sentido oferecer cervejas extremamente complexas a um público que ainda estava dando os primeiros passos no universo da cerveja artesanal. 

Por isso, a cervejaria adotou uma estratégia baseada na formação gradual do consumidor. Em vez de concentrar seus esforços apenas em IPAs, como ocorreu com muitas cervejarias brasileiras, a Proa construiu um portfólio diversificado, capaz de introduzir novos aromas, sabores e conceitos de forma progressiva. A ideia não era apenas vender cerveja, mas ampliar o repertório do público

Essa filosofia dá as caras na Sour de Caju. Depois de experiências anteriores com cervejas ácidas que encontraram pouca receptividade, a equipe decidiu reformular a abordagem.

A nova receita trouxe maior destaque para a fruta, um perfil sensorial mais acessível e uma comunicação mais próxima do consumidor. O resultado foi um dos rótulos mais emblemáticos da cervejaria, reconhecido por traduzir em forma de cerveja o frescor e a identidade do caju baiano.

Crescer em um mercado cada vez mais competitivo

Apesar das dificuldades enfrentadas pelo mercado brasileiro de cerveja artesanal nos últimos anos, a Proa segue em expansão. Isso não significa, porém, que os desafios tenham diminuído. Como destaca Débora, a disputa por espaço continua sendo uma batalha diária. 

Um dos principais obstáculos está nos contratos de exclusividade firmados entre bares e grandes grupos cervejeiros. Segundo ela, a cerveja artesanal representa menos de 1% do consumo nacional, mas ainda assim enfrenta barreiras significativas para acessar pontos de venda. Tais acordos dificultam a entrada de marcas independentes em bares e estabelecimentos, criando uma disputa desigual entre pequenos produtores e empresas com muito mais recursos. Apesar desse cenário, a Proa já alcançou cerca de 220 pontos de venda distribuídos pela Bahia. 

Além das dificuldades de mercado, a cervejaria precisou enfrentar momentos especialmente delicados, como a pandemia, problemas operacionais e até uma paralisação não programada da fábrica durante o período de maior faturamento do ano. Ainda assim, conseguiu preservar sua trajetória de crescimento e consolidar sua posição como uma das principais referências da cena cervejeira baiana. 

Navegando rumo ao futuro

A conversa entre Ludmyla Almeida e Débora Lehnen durante o episódio deixa claro que a Proa é mais do que uma cervejaria artesanal. Sua trajetória é marcada pelo esforço de desenvolver o mercado, valorizar a cultura local e formar consumidores em uma região onde a cena cervejeira ainda está em construção. .

Enquanto muitas empresas disputam espaço seguindo tendências, a Proa escolheu construir sua própria rota. E, embora a maré nem sempre seja favorável, a cervejaria segue fiel ao lema que a acompanha desde o início: navegar contra a maré da mesmice! 🍺🌊


Escute a Débora Lehnen falando sobre empreendedorismo feminino na cerveja e o mercado baiano em mais um episódio do Surra de Lúpulo.

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